Ética é o conjunto de valores, ou padrões, a partir dos quais uma pessoa entende o que seja certo ou errado e toma decisões. A ética é importante por que respeita os outros e a dignidade humana.

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2012
Viana manifesta-se contra a tourada
Apenas o Esquerda.net entrevistou as organizadoras da manifestação, tendo a SIC, televisão onde não passam touradas, sido a única que mostrou imagens da manifestação. Foto de Dalila Teixeira

A mensagem de (quase) todas as reportagens é a de que os confrontos físicos entre manifestantes e aficionados apenas foram evitados pela atuação da polícia. Mas quem esteve lá viu aficionados a passar pelo meio da manifestação, provocando com insultos e gestos ofensivos, sem que nada lhes tenha acontecido

As festas da Senhora D'Agonia são as mais importantes em Viana do Castelo. As ruas enchem-se de gente para ver os cortejos em que são exibidos trajes tradicionais, “gigantones e cabeçudos” e “zés p'reiras”. Como é habitual nestas festas, há carrocéis, carrinhos de choque, farturas e tudo o que se encontra nas feiras portuguesas. Mas este ano houve algo de novo: a festa foi manchada com uma tourada.

Desde 2009 que a Câmara de Viana erradicou do concelho as touradas. Depois de ter declarado a cidade como anti-touradas, a autarquia decidiu adquirir a praça de touros para a encerrar à atividade tauromáquica. Durante três anos não houve tourada e a população não sentiu a sua falta. Mas os empresários tauromáquicos não perdoaram a ofensa e, tendo formado a ironicamente designada federação Prótoiro, resolveram organizar uma tourada de novo em Viana, em praça amovível.

Contra esta provocação gratuita, um grupo de cidadãs de Viana começou a mobilizar-se, via internet, para organizar um protesto. A notícia espalhou-se e a manifestação contra a tourada acabou por contar com mais de 300 pessoas, destacando-se claramente como a maior já organizada fora de Lisboa nos últimos anos. Na manifestação estiveram presentes várias associações de defesa dos animais e culturais, assim como aderentes do Bloco de Esquerda. O ex-presidente da câmara responsável por declarar Viana como concelho anti-touradas, Defensor Moura, também marcou presença.

Ao som de batuques e de frases como “Festas D'Agonia sem tauromaquia” ou “Tortura de animais em Viana nunca mais”, a população de Viana expressou a sua indignação. À medida que o público entrava para a arena, tornava-se claro aquilo que toda a gente já sabia: que a Prótoiro trouxe gente de fora, inclusive do sul do país, dado que não há em Viana suficientes “aficionados/as” para pagar 20€ por uma tourada.

Para além das provocações habituais dos toureiros, a manifestação teve ainda de lidar com a atitude agressiva de um corpo policial pago pela Prótoiro para impedir o acesso de manifestantes ao terreno onde foi montada a arena. A polícia contratada começou por tentar arrastar a manifestação para um local afastado, onde seria invisível, mas o cordão foi fraco demais para conter toda a gente e a manifestação acabou por se realizar em frente à arena. Devido sobretudo à agressividade de um polícia que se recusou a identificar, por mais de uma vez os ânimos exaltaram-se, tendo uma carga policial sido evitada pela atitude conciliadora da organização.

Tribunal autorizou a ilegalidade

O pedido de licenciamento da tourada foi rejeitado pela Câmara de Viana com base nas leis de ordenamento do território. O terreno onde foi montada a arena amovível está classificado como Reserva Agrícola Nacional e Reserva Ecológica Nacional, estando ainda integrado na rede de áreas protegidas europeia Natura 2000, pelo que até a construção de um pequeno barraco para uso dos agricultores requer uma autorização especial. Mas a federação Prótoiro interpôs uma providência cautelar junto do Tribunal de Braga, argumentando que a autarquia não poderia impedir um espetáculo que é permitido pela lei, tendo conseguido um veredicto favorável num processo que foi concluído em tempo recorde.

A autarquia, que nem sequer foi ouvida no processo, reagiu de imediato interpondo um recurso. Mas desta vez o tribunal não foi tão expedito, tendo dado na sexta-feira um prazo de cinco dias para a organização da tourada responder às questões da autarquia. Uma decisão que, na prática, permitiu à Prótoiro realizar a tourada, apesar de estar a violar a legislação de proteção do território e apesar de estar numa cidade anti-touradas.

Campanha de desinformação

Quem tiver acompanhado as notícias da manifestação pela comunicação social terá visto como a mensagem presente em (quase) todas as reportagens é a de que os confrontos físicos entre manifestantes e aficionados apenas foram evitados pela atuação da polícia. Mas quem esteve lá viu aficionados a passar pelo meio da manifestação, provocando com insultos e gestos ofensivos, sem que nada lhes tenha acontecido. A violência estava presente, mas apenas do lado de quem se diverte com o sofrimento de um animal.

Apenas o Esquerda.net entrevistou as organizadoras da manifestação, tendo a SIC, televisão onde não passam touradas, sido a única que mostrou imagens da manifestação. A TVI ignorou o protesto e a RTP fez uma reportagem em que deu oportunidade ao presidente da Prótoiro, José Reis, para lançar acusações falsas de supostos atos de violência por parte dos manifestantes. Nada de novo, já que a RTP se tem unido ao Jornal de Notícias e ao Correio da Manhã para dar tempo de antena ao empresário tauromáquico que se queixa de um “ecoterrorismo” que nunca existiu.

Tal como aconteceu com os chamados “indignados”, as manifestações anti-touradas têm sido capazes de quebrar o muro de silêncio mediático, através da internet e da comunicação boca-a-boca. Esta é a face mais visível de um novo tipo de ativismo pelos direitos dos animais, que funciona em rede, de forma descentralizada e democrática, e que rejeita a atitude legalista de quem acha que as causas se ganham em reuniões fechadas com governantes e não na rua. Um ativismo que tem crescido exponencialmente, tanto em número de pessoas como em reivindicações.

www.esquerda.net


“Viana do Castelo continuará a ser uma cidade anti-touradas, não há localização sequer para as receber”, disse Defensor Moura. Foto de ARMENIO BELO/LUSA

Viana continuará a ser cidade anti-touradas
Ex-autarca critica decisão de Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga que viabilizou tourada na cidade que proibira a realização desses eventos em 2009. Promotores da Prótoiro afirmam que “caiu a Catalunha portuguesa”. Câmara pretende continuar a aplicar a decisão que impede as touradas no concelho.

A comemoração dos dirigentes da comissão executiva da federação Prótoiro, que organizou a tourada este domingo em Viana do Castelo, afirmado ter-se tratado de um “dia histórico”, porque “caiu a Catalunha portuguesa”, mostra que o objetivo dos promotores era mais do que apenas realizar uma corrida de touros.

“Viana do Castelo continuará a ser uma cidade anti-touradas, não há localização sequer para as receber”, afirmou o ex-autarca Defensor Moura, que fez aprovar em 2009 a declaração de Viana como concelho sem touradas.

O ex-autarca considerou inadmissível a instalação da arena em terrenos classificados da freguesia de Areosa, por se tratar de uma área em que “nem um agricultor pode construir um casebre para guardar os seus utensílios”.

O Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga viabilizou a tourada, ao dar cinco dias à organização para se pronunciar sobre os argumentos do município no recurso que este apresentou contra a sua realização. Na prática, esta decisão permitiu a realização da tourada, na freguesia de Areosa, apesar de a câmara insistir que a instalação da arena amovível, para 3.300 pessoas, foi feita em terrenos de "elevado valor paisagístico", numa "violação grave" do Plano Diretor Municipal (PDM), da Reserva Ecológica Nacional e do Plano de Ordenamento da Orla Costeira.

A Câmara, presidida por José Maria Costa, do PS, mantém a declaração, aprovada em reunião de câmara a 27 fevereiro de 2009, de "antitouradas", ou seja não autorizando a realização de qualquer espetáculo do género em terrenos públicos ou privados.

“Não sabemos como é que vieram para aqui”

Rita Silva, presidente da Animal, associação que colaborou com a Câmara de Viana na elaboração da moção aprovada em 2009, disse que a organização já se ofereceu como testemunha na ação principal que se irá seguir à concessão pelo Tribunal de Braga da providência cautelar que permitiu a instalação da praça amovível para a realização da corrida:

“A federação decidiu 'pegar' com Viana para aborrecer porque nunca vieram para aqui. Não sabemos como é que vieram para aqui, com que meios. Há uma forte possibilidade de o terem conseguido por formas erradas. Nós vamos querer ir até ao fundo desta questão e descobrir porque é que o tribunal teve esta decisão que para além de imoral não é muito legal”, sustentou.

A Animal moveu atualmente uma ação contra a Prótoiro por difamação, coação e ofensa ao bom-nome da sua presidente, por ter distribuído uma “série de imagens” nas redes sociais com “textos com mentiras acusando-me de ser burlona e de estar a prejudicar a organização, em particular, e a causa da defesa dos animais, em geral”, disse Rita Silva.

No domingo, realizaram-se duas manifestações em Viana contra a realização da tourada – uma no centro da cidade no meio da tarde, com cerca de cem pessoas, e outra diante da arena com a participação de 300 pessoas.

www.esquerda.net/


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Sábado, 23 de Junho de 2012
Os Pró-Touradas Deixam Cair a Máscara
Dia 22 de Junho, audição pública na Assembleia da República para apresentação de dois projectos de lei do Bloco de Esquerda sobre touradas. Os aficionados apelaram em redes sociais e websites à mobilização geral. A palavra de ordem era todos à Assembleia da República para mostrar que não aceitamos que toquem nas nossas “tradições” e “cultura”. Não podem segundo eles coartar a liberdade, deles, de assistiram à tortura de um animal numa praça de touros.

Os poucos que compareceram mostraram a sua verdadeira cultura que passou por ameças a deputados e insultos. Caiu-lhes a máscara.
Mostraram finalmente aquilo que são na realidade. Um bando de pessoas agressivas e violentas. Nada que possa espantar vindo de pessoas que se movimentam num mundo de violência. Porque torturar e aplaudir a tortura é próprio de pessoas violentas e agressivas.

Esperemos que os deputados deste país tenham percebido de uma vez por todas com que tipo de gente estão a lidar e se deixem de vergar a lobbies tauromáquicos. Que o dia de ontem sirva de lição para o país. O mundo da tauromaquia é um mundo povoado por pessoas violentas, agressivas e que não respeitam ninguém especialmente quando o que está em causa é a perda de subsídios do Estado e o seu negócio sangrento.

Audição pública do BE sobre touradas marcada por insultos e ameaças

Um aceso confronto de argumentos pró e contra as touradas, pontuado por insultos e ameaças, marcou esta sexta-feira a audição pública convocada pelo Bloco de Esquerda para debater o fim do apoio institucional a espetáculos tauromáquicos.

Esta matéria consta de um dos dois projetos de lei apresentados pelo BE – no outro, defende-se que seja proibida a exibição de touradas na televisão pública – que serão debatidos na Assembleia da República a 4 de julho.

A sessão começou logo com um incidente. Enquanto a deputada bloquista Catarina Martins explicava o conteúdo dos dois projetos de lei, uma assessora do BE tirou uma foto à plateia, onde se encontravam cerca de 70 pessoas, e vários dos elementos pró-tourada insurgiram-se de imediato, exigindo que a fotografia fosse eliminada à frente deles.

Após uma inflamada troca de palavras, contentaram-se, a contragosto, com a garantia do deputado bloquista que moderava o debate, Pedro Filipe Soares, de que a imagem seria apagada.

Então, é consigo que eu venho falar se a fotografia sair amanhã no jornal”, rematou um dos indignados fotografados.

Depois, seguiu-se hora e meia de intervenções de representantes de associações e movimentos e de algumas pessoas que falavam a título individual, algumas de tom mais sério, com posições fundamentadas, outras mais revoltadas e sarcásticas, com acusações e interrupções de parte a parte, recebidas com palmas e “olés” no final.

Catarina Martins sublinhou, no início da sessão e depois, novamente, no final, que nenhum dos projetos de lei do Bloco de Esquerda “sugere a proibição das touradas”, embora a realidade dos maus-tratos infligidos aos animais “não seja subjetiva”, porque existe conhecimento científico sobre o sofrimento animal.

A única coisa que o BE defende, nestes seus projetos de lei, é que o Estado, o dinheiro público, não deve financiar a exposição do sofrimento animal” e que a RTP não deve exibir espetáculos tauromáquicos, frisou.

Com estas leis, ninguém fica proibido de fazer touradas, assistir a touradas ou mesmo transmiti-las em circuito fechado, onde bem lhe aprouver. O que está aqui em causa é o apoio público”, insistiu.

Apesar destes esclarecimentos, houve quem defendesse que, como a tourada faz parte da herança cultural portuguesa, acabar com ela seria “uma medida ditatorial”, que as pessoas que se manifestam em locais públicos contra a realização de touradas são pagas, recebendo 25 euros cada uma, e que “quem gosta de toiros não é atrasado mental” – embora ninguém, durante a sessão, tenha assim designado os apoiantes da tourada.

Um acérrimo defensor da causa tauromáquica chegou mesmo a insultar a presidente da Associação ANIMAL, Rita Silva, que falara antes, acusando-a de “falta de inteligência”.

Um outro, José Reis, representante da Prótoiro – Federação Portuguesa das Associações Taurinas, classificou o debate como “do mais demagógico” a que tem assistido, porque não só “não há apoios públicos à tauromaquia”, sustentou, como “as associações de animais vivem à custa da tauromaquia”.

Por sua vez, o secretário-geral da Associação Nacional de Proprietários e Produtores de Caça (ANPC), João Carvalho, manifestou a sua preocupação com o facto de, a serem aprovados estes projetos, “atividades intimamente ligadas aos espaços rurais não poderem receber apoios públicos”.

Catarina Martins respondeu-lhe no final: “Há atividades ligadas à tauromaquia, sejam agrícolas ou de preservação de certos ecossistemas, cuja importância nós reconhecemos e respeitamos – apenas queremos que o Estado deixe de financiar um espetáculo de violência sobre os animais”.

Audição pública do BE sobre touradas marcada por insultos e ameaças


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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
Touradas, garraiadas e (pseudo-)tradições: feminismo faz pega de caras ao patriarcado

Contra as touradas, contra garraiadas, contra abusos. Estas tradições e outras pseudo-tradições peguêmo-las de caras.
O garbo, a pose, o traje de luzes! O cheiro a sangue a borbotar do cachaço do touro ferido pela espada, pelas bandarilhas. O homem macho feito espetáculo. Que melhor nome podia ter? O marialva, o matador. O touro bravo, a natureza bruta, dominada, jaz aos pés.
Versão mais soft(?), sem morte do animal. À vista. Morte assegurada, muitas horas mais tarde, fora da arena. Versão espetáculo do sofrimento de animais, de todas as maneiras. Dos touros, mas também dos cavalos treinados para enfrentar outro animal, tornado inimigo pela tourada.
dicionário define garraio: 1. Touro novo (que ainda não foi corrido). 2.[Figurado] Homem inexperiente.i
Touro não é animal em estado natural. É produto de apuramento genético para fabricar animal de aspeto fero, inimigo-ator, animal-espetáculo, animal-para-morrer. Produto, portanto, mais que animal. Garraio: produto incipiente na linha de produção, pretérito do produto final.
Homem domina animal, civilização domina natureza – duplamente. Recria-a por capricho, cria-a para morrer à mão. Tradição ancestral. Imagem dum passado em caixilho dourado, pechisbeque. História-mito, almofada onde adormece a consciência do animal humano para esquecer que o é, para ascender a diferente, superior animal com direito à vida e à morte de todos os outros. Mito caprichado da supremacia. Retirado da natureza, estádio vil em que animal mata animal para comer.
Dentro da civilização duma natureza-objeto, no abuso por gozo puro, requinte cultural do homem-macho. Natureza criada pelo patriarcado e pelo industrialismo à sua própria imagem. No mundo há muitas outras naturezas. A tradição estava criada. A tradição está servida.
«Civilização, obviamente, refere-se a um padrão complexo de dominação de pessoas e de toda a gente (todas as coisas) mais, atribuído frequentemente à tecnologia – fantasiada como «a Máquina». Natureza é um símbolo tão potente de inocência em parte porque 'ela' é imaginada como privada de tecnologia, para ser o objeto da visão e assim uma fonte tanto de saúde como de pureza. Homem não está na natureza em parte porque não é visto, não é espetáculo».ii
Praxe académica, garraiada, queima-das-fitas.
«A praxe, enquanto ritual iniciático, transmite todo o tipo de valores reacionários. Valores como a submissão, o sexismo, a homofobia e o corporativismo são exaltados, numa 'escola de vida' na qual se ensina a supressão do pensamento crítico, a obediência cega à ordem estabelecida e a necessidade de impor hierarquias de tipo militarista na sociedade». iii
Garraiada vai bem com praxe. Praxe também é tradição, ou não? Faz-se correr animal jovem (também podia ter sido aluno, como antigamente, outrogarraio), enquanto outros maltratam, batem, puxam o rabo. Não o fariam se fosse outro animal, talvez. Garraio existe para ser garraiado. Caloiro existe para ser praxado.
Morreu? Foi sem querer. Bicho é coisa, bicho é não-homem, bicho é apenas natureza. Feito para isso. Homem-macho opõe-se a bicho, não tem 'coisas' por animais, não é abichanado. Civilização é homem-macho.
Praxe rima com abuso. Praxe rima com macho.
Abusos sobre raparigas? Não é praxe, é exagero. Acontece é muito.
«A contestação da Praxe em Portugal não é coisa recente. Em textos que datam da primeira metade do século XVIII, já alguns estudantes atacam, por vezes em forma versificada, as assuadas rituais ou verbais: canelões e investidas».iv
A tradição reinventa-se, justifica-se todos os dias. Ou transforma-se.
Que tem feminismo a ver com touradas e garraiadas? Tem tudo.
O pensamento feminista associa natureza e humanidade, não as opõe. Forjado na luta contra a opressão de género, opõe-se a todo o género de opressões. Contesta a história patriarcal, as tradições de negar direitos, de naturalizar maus-tratos. Celebra a reinvenção do quotidiano, sonha outras tradições.
Contra as touradas, contra garraiadas, contra abusos.
Estas tradições e outras pseudo-tradições peguêmo-las de caras.

i Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
ii Haraway, Donna. 1994. “Teddy bear patriarchy: taxidermy in the garden of Eden, New York city, 1908-1936.” P. 49-95 in Culture power history: a reader in contemporary social theory, edited by Nicholas B. Dirks, Geoff Eley, and Sherry B. Ortner. Princeton, N.J.: Princeton University Press.: Princeton University.
iii Coelho, Ricardo. 2012. A praxe como escola de vida. Esquerda.net. 22 abril.
iv Frias, Aníbal. 2003. “Praxe académica e culturas universitárias em Coimbra. Lógicas das tradições e dinâmicas identitárias.” Revista Crítica de Ciências Sociais, 2003 (66, Outubro):81-116.


Investigadora em sociologia da cultura


publicado por Maluvfx às 03:27
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Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010
A nossa esquerda só pode ser anti-tourada
Ricardo Coelho
por Ricardo Coelho 



A nossa esquerda nada tem a ver com o conservadorismo da defesa incondicional da tradição, porque é uma esquerda moderna.

Depois da sua proibição na Catalunha, a tourada está rapidamente a ser enviada para o baú das más recordações do passado. Por todo o Estado Espanhol multiplicam-se os protestos para estender o fim da tourada ao resto do país, com o apoio de toda a esquerda. No sul de França, o retrato repete-se, agora que as touradas se deslocam da Catalunha para o outro lado da fronteira. Esta é também a nossa luta, na medida em que contamos com vários bastiões desta cruel tradição em Portugal.

Após um período de constante declínio, o número de espectadores das touradas aumentou bastante desde 2006, ano em que abriu a nova praça de touros do Campo Pequeno, em Lisboa. Desde então, o número de espectadores tem-se mantido relativamente constante, em torno dos 300 mil, mas em 2008 dá-se uma importante transformação: a proporção de bilhetes oferecidos aumenta para o dobro, atingindo mais de 40%.

O que temos assistido nos últimos anos, portanto, é a sustentação da tourada com dinheiros públicos, provenientes sobretudo de algumas autarquias. Segundo apurou o Movimento Anti-Touradas de Portugal, em 2009 um milhão de euros de dinheiro dos contribuintes foi usado para financiar a tauromaquia. Os maiores gastadores são a Câmara de Angra do Heroísmo, com 275 mil euros dados em vários apoios e a Câmara de Santarém, com 168 mil euros gastos na compra de bilhetes.

Estas duas autarquias têm sido importantes bases de sustentação da tourada em Portugal. Da primeira, saiu a inqualificável candidatura da Festa Brava da Terceira como Património Imaterial da Humanidade. Da segunda, saiu uma petição a favor das touradas, encabeçada por Moita Flores, seu presidente.

Numa entrevista ao Correio da Manhã, Moita Flores, de peito cheio, anunciava a guerra contra os “talibãs” que pretendem destruir a tourada. A estrela televisiva tem o descaramento de defender que a tourada não recebe apoios públicos, apesar de ser um dos seus maiores financiadores. O criminalista que sabe tudo sobre a Maddie afirma ainda que a tourada é o segundo espectáculo mais visto em Portugal, a seguir ao futebol. Será, se excluirmos todos os outros. Na realidade, até a música clássica ou o folclore contam com mais do dobro dos espectadores que a tourada, segundo os dados do INE. Estamos no domínio da fantasia, portanto.

Mas a perigosa fantasia estende-se também ao Ministério da Cultura. Em Fevereiro deste ano, a Ministra Gabriela Canavilhas decidiu criar uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura. O objectivo é muito claro: pretende-se dar à tourada uma aura de legitimidade enquanto actividade cultural, como se fizesse sentido falar em arte num espectáculo que consiste num ritual de tortura.

Temos assim uma coligação de interesses que usa de forma explícita o poder político para perpetuar a existência de uma tradição obsoleta, que tanto deslumbra uma certa burguesia marialva, saudosa da monarquia e omnipresente na “imprensa cor-de-rosa”. A esta burguesia opõem-se todos/as aqueles/as que vêem na tourada um resquício de um medievalismo que urge erradicar da nossa sociedade.

Em grande medida, o grau de desenvolvimento de uma sociedade vê-se pela forma como trata os seus animais. O sofrimento animal provocado por humanos não é apenas cruel, porque desnecessário – é também degradante para o próprio ser humano. A luta contra todos os maus-tratos para com animais não humanos é, portanto, uma luta humanista e deve fazer parte do património da esquerda.

A nossa esquerda nada tem a ver com o conservadorismo da defesa incondicional da tradição, porque é uma esquerda moderna. A nossa esquerda não pode agarrar-se à ideia ultrapassada de que os animais não sofrem, porque é uma esquerda científica. A nossa esquerda não pode aceitar o determinismo da hierarquização das lutas, porque é uma esquerda plural e inclusiva.

Quando pudermos olhar para trás e dizer “acabamos com as touradas”, saberemos que atingimos, uma vez mais, um novo patamar na evolução da esquerda. Iniciemos então o debate sobre estratégias para atingir este objectivo.


publicado por Maluvfx às 22:14
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