Ética é o conjunto de valores, ou padrões, a partir dos quais uma pessoa entende o que seja certo ou errado e toma decisões. A ética é importante por que respeita os outros e a dignidade humana.

Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012
Corrida à Portuguesa - Sofrimento dos Touros

Álbum de Marinhenses Anti-touradas



publicado por Maluvfx às 04:56
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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2012
O Touro de lide não é um ser sobrenatural.

Depois de escrever o meu post sobre a tourada em que incluí parágrafos sobre as reacções do touro na arena, descobri inúmeros comentários relativos a um estudo que dizia que os touros não sentem dor ou que não sofrem na tourada.

O numero de animais variava, os métodos variavam e as conclusões também e era importante encontrar a versão "oficial". Tudo o que encontrei foi este estudo, editado pela própria Faculdade do autor:

"Regulação neuro-endocrina do stress e da dor no touro de lide (BOS TAURUS L.). Um estudo preliminar"(1), por Carlos Ileria

E começa assim:

"O gado bravo possui uma série de peculiaridades que fazem com que seja praticamente impossível a sua comparação com outras espécies ou raças de animais."

Uma afirmação extraordinária não? Nada frequente em ciência. Mas podemos aceitar uma certa liberdade semântica dentro de um contexto que o justifique, por isso vamos continuar.

O estudo diz que é preliminar logo no titulo. E isso nota-se que é, por razões que direi mais à frente. Quer dizer que o estudo não serve para tirar conclusões definitivas, mas deveria servir para justificar mais estudos e mais pesquisa. Ou pelo menos devia ser esse o significado de preliminar. Parece-me estranho que mais à frente se tirem mais conclusões extraordinárias. Embora em nenhum lado diga que o touro não sofre. Isso, o estudo tem a razoabilidade de não dizer.

Mas devo dizer desde já que eu espero que aqueles resultados sejam verdadeiros, porque longe de mostrar que não há sofrimento brutal na tourada, sempre mostra que o touro pode ter alguma coisa a seu favor para aguentar melhor (que outra raça) que lhe espetem uma farpa nas costas (e a girem para "castigar") e lhe partam vértebras, rompam músculos, cortem nervos, etc. Para bem dos touros espero que alguma coisa aqui seja verdade. Agora que há sofrimento e que o espectáculo é uma barbárie, este estudo não põe em causa. Pelo contrário, eu penso que mostra o tipo de dor que esta em causa, embora sugira que o touro possa de facto, pela sua atitude, conseguir tolerar o stress. Tudo junto é uma barbaridade de qualquer maneira.

Adiante, vamos aos pormenores:

O estudo mede o cortisol, uma hormona do stress, em três situações: Durante a lide, o transporte e uma corrida de touros. E mede também a ACTH e as beta-endorfinas. A ACTH é a hormona produzida na hipófise para levar a adrenal a produzir corticoides (cortisol) e as beta-endorfinas são moderadores da dor. Estas endorfinas opioides naturais que reduzem a sensação de dor - mas não a eliminam. Tanto que relativamente aos animas e humanos também, uma situação em que há muita beta-endorfina em circulação é no parto e é de notar que as mulheres queixam-se de dores na mesma - na realidade é o topo da escala de dor! Com endorfinas incluídas.

Quanto ACTH e Cortisol. Ele usa-os como uma medida do stress. Tudo bem E conclui que:

"a primeira coisa que reparamos é que o touro é um animal especial endocrinologicamente falando já que tem uma resposta totalmente diferente de todas as outras espécies de gado e espécies animais".
 
Bem, esquecendo a linguagem, estranhamente cheia de liberdades semânticas (mais uma vez), eu penso que aqui poderá haver alguma verdade. Vale a pena prosseguir mais estudos para confirmar ou refutar isto. Parece haver de facto uma diferença significativa entre o cortisol libertado no transporte - uma situação extremamente stressante para os animais, já muito debatida e conhecida - e a lide. Era de esperar que os valores fossem bastante mais próximos. Além disso, há uma explicação plausível. O touro pode ter a determinada altura a ilusão que tem alguma coisa que pode fazer acerca da situação. A impotência é uma causa de stress. E a postura agressiva está associada a menos libertação de cortisol. Talvez pela mesma razão de aparentemente haver alguma coisa que o touro possa fazer, como dar umas marradas para se vingar. É estúpido, mas pode ser a perspectiva dele. É algo que ajuda, tal como dar um cinto para trincar aos soldados a quem se vai cortar uma perna, ou dizer uns palavrões para descomprimir. Mas a diferença para o transporte, em que a impotência é aparentemente maior é muito grande. Por isso, é de admitir que haja de facto um stress menor na lide que no transporte, ou pelo menos um stress menos debilitante.

No entanto precisamos de confirmar isto melhor. É preciso experimentar outras raças na lide - a ideia não me agrada mas seria a única ideia de poder comparar o touro de lide com outras raças a este respeito, sem isso o autor não pode concluir cientificamente que o touro de lide é assim tão especial. Por mim a tourada acabava na mesma, mas eu encontrei estudos que mostram que a variabilidade da libertação de cortisol, por causa de uma cirurgia, nas raças "normais", é muito variável de animal para animal. Na realidade se se escolhessem os casos individuais menos reactivos poderíamos conseguir artificialmente e desonestamente o mesmo efeito que há no estudo de Ilera. Isto não mostra que há desonestidade no trabalho de Ilera, mostra sim que o efeito esta dentro da variabilidade natural. Que não há nada de realmente novo que pode ser explicado apenas por selecção de genes que já existem nas outras raças, não havendo na raça brava algo mais que uma afinação para reagir melhor ao cortisol. Algo que se pode conseguir até com treino físico apenas.

Faltam também resultados de medições mais seriadas. Antes da lide, durante e imediatamente após pelo menos. Falta dizer a que horas do dia. (o cortisol tem um ritmo circadiano). Falta dizer quanto tempo depois da colheita foi feita analise. Como foi o sangue conservado? E em relação ao transporte a mesma coisa. Muito importante era saber quanto tempo de transporte houve antes de se colher o cortisol, alem da hora do dia, etc.

O autor diz que não é possível ter um controle cientifico porque não se conseguem ter amostras de cortisol basal. Todo o acto de medir, picar, influencia o resultado. Isto é verdade. Há sempre stress envolvido na colheita com os métodos actuais. Mas mesmo assim, uma pesquisa pela Internet levou-me a imensas tentativas de encontrar esse valor para a espécie bovina e os valores andam entre as 3 e 10 ng /ml quando os animais estão calmos e em ambientes neutros. Parece que no campo, apanha-los para medir da origem a valores um pouco mais altos, mas não muito mais. Um estudo refere 15ng/ml (ou mg/L). Se o touro de lide tiver valores tão baixos então a lide representa um aumento de duas vezes o valor de repouso. Isso é stress. Se o touro de lide tiver já de si valores anormalmente altos, então sabe-se que isso esta associado a respostas menores de cortisol, tal como está a doença ou a depressão. Não parece ser o caso por causa da resposta de cortisol no transporte, por isso eu penso que vamos encontrar valores semi-basais (há sempre stress) entre os tais 3 e 10 mg/ml.

E a conclusão é de que há stress. Não que não há stress. E nada que seja tão extraordinário que permita concluir que o touro esta com menos stress que uma gazela que acabou de conseguir puxar a pata de dentro da boca do leão. Que a ansiedade causada pelo transporte é uma tensão brutal já é bem conhecido. Abaixo esta um estudo que mostra por exemplo que pilotos de aviões militares em missão quase não stressam quando comparados com o estado em que segue a tripulação do mesmo avião.

Agora as endorfinas.

Aqui é que eu acho que o estudo cai completamente por agua abaixo. Muitas endorfinas quer dizer muita dor. Se a quantidade de endorfinas é tão estupidamente alta, é porque a dor é estupidamente alta. Experimentem ir dizer a uma mulher que o parto não dói por causa das enforfinas. Depois do parto, se for natural, vão ouvir umas bonitas. Assumir que aquele nível de endorfinas é capaz de eliminar a dor é um exagero. Um exagero que o autor reconhece no fim do estudo quando diz que é preciso fazer outros exames. Agora, que aponta para uma redução da dor é um facto. Mas quanto dói ter as vértebras a serem estilhaçadas com a bandarilha espetada e que fracção disso é eliminada pelas endorfinas? Não é total. O Touro tem outras manifestações que sugerem que haja dor. Tal como a tentativa raivosa de vingança após levar com a estocada. Talvez a farpa não doa tanto ao touro como uma farpa espetada nas nossas costas. Talvez seja só como se fossem pregos e não farpas. E em vez de doer como grandes músculos a rasgar e vértebras a partir doa só como se fossem menos vértebras a partir e menos músculos a rasgar. E o que é que isto quer dizer?

Outra coisa que dá origem a elevações acentuadas das endorfinas é o acido láctico. O tal da dor de burro, com origem no metabolismo anaeróbio durante o exercício físico. E esse é tão elevado na lide que o touro entra em acidose metabólica.

Uma mulher em parto (sem preparação ou analgésicos) chega aos 65pg/ml de beta endorfinas(2). O touro bravo chega neste estudo aos 17pg/ml. Tive de confirmar as unidades várias vezes para ver que era verdade.. Torna a afirmação do estudo: "chega o momento em que deixa de sentir dor" absolutamente extraordinária.

E afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.

Coisas que o autor parece afinal, no fim do estudo lembrar-se. Relembra que é um estudo preliminar e que faziam falta ressonâncias magnéticas funcionais para comprovar a sua tese.

Sim, isso e aumentar o rigor deste trabalho.

Até lá, não há aqui nada que sugira que não há sofrimento e muito na tourada. Pelo contrário, há sinais que a destruição de tecidos e a estimulação de receptores de dor é muito grande.

Além do mais sabemos que altos níveis de endorfina levam a alteração do estado de consciência. O que levariam a uma aspecto sedado do touro. Coisa que parece não acontecer.

Se se mostrar que o touro na tourada não tem dor NENHUMA, para lá da dúvida razoável, eu penso que isso de facto será um argumento de força para os aficionados. E um que eu até espero que seja verdade, uma vez que me parece não posso fazer muito para acabar com ela. Mas a tourada inclui o transporte por exemplo. A não ser que passemos a criar o touro na arena. O autor apenas mostra mais um aspecto que causa sofrimento desnecessário associados à tourada.

Mas se não houvesse dor era sem dúvida melhor. 

Mas estamos longe de poder tirar tal conclusão. Com a maior das honestidades. Quando isso for um facto penso que se devem rever os argumentos a favor e contra a tourada. Não creio de modo algum que tenha chegado esse momento.

Notas:
Não me apetece ter o trabalho de ordenar as citações de acordo com os estudos. No entanto estão referenciados dois estudos directamente pela relevância. São todos pertinentes, e deixei notas sobre o que dizem, pois faz parte da maneira como eu colecciono artigos para depois fazer os textos. Está lá tudo.

Valores normais são entre 3 e 10 mg/ml.Podemos ver a enorme variação na reposta de cortisol entre os vários animais e como alguns reagem mais à cirurgia que o touro bravo na lide e outros menos à cirurgia que o touro bravo na lide:
http://vfu-www.vfu.cz/acta-vet/vol74/74-037.pdf

A refutação por outro colega meu, que salienta alguns pontos de modo diferente:
http://sites.google.com/a/avatau.com/www/elsufrimientodeltoroenlalidia

(1) - REGULACIÓN NEUROENDOCRINA DEL ESTRÉS Y DOLOR EN EL TORO DELIDIA (BOS TAURUS L.): ESTUDIO PRELIMINAR -http://revistas.ucm.es/vet/19882688/articulos/RCCV0707330001A.PDF

Estudo sobre a quantidade de cortisol libertado de acordo com a personalidade:
http://www.nature.com/npp/journal/v31/n7/full/1301012a.html

Homens treinados libertam menos cortisol:
http://www.psych.nyu.edu/phelpslab/papers/07_Psychoneuro_V32.pdf

alterações ao nível da bioquímica sanguínea:
http://revistaveterinaria.fmvz.unam.mx/fmvz/revvetmex/a1998/rvmv29n4/rvm29410.pdf

Atitudes mais agressivas podem libertar menos cortisol:http://www.sciencedirect.com/science?_ob=ArticleURL&amp%3B_udi=B6T0P-47XN26S-47&amp%3B_user=10&amp%3B_coverDate=06%2F30%2F1990&amp%3B_rdoc=1&amp%3B_fmt=high&amp%3B_orig=search&amp%3B_origin=search&amp%3B_sort=d&amp%3B_docanchor&amp%3Bview=c&amp%3B_searchStrId=1463087442&amp%3B_rerunOrigin=google&amp%3B_acct=C000050221&amp%3B_version=1&amp%3B_urlVersion=0&amp%3B_userid=10&amp%3Bmd5=afee6a9284b9169508d8fc1199ce48b8 animais doentes secretam menos cortisol:http://www.actavetscand.com/content/52/1/31

Os pilotos stressam menos que os outros membros da tripulação:http://www.psychosomaticmedicine.org/cgi/content/abstract/47/4/333

Níveis de betaendorfinas ante e post-mortem em matadouro com pistola de estilete (notar que a morte é sem dor):http://www.aspajournal.it/index.php/ijas/article/viewFile/ijas.2007.1s.457/1473

(2) Níveis de beta-endorfinas no parto na espécie humana:http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2932121"

Fonte


publicado por Maluvfx às 07:09
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Touros de Lide versus Drogas
Somos frequentemente acusados pelos aficionados de proferirmos afirmações que são totalmente falsas e de facto em alguns casos, temos que admitir que eles têm razão. Tal facto não ajuda a nossa causa, antes pelo contrário.

Existem numerosas informações na internet, que afirmam que os touros antes de uma tourada são sujeitos a diversas práticas, tais como vaselina nos olhos, sacos de areia, agulhas nos testículos, algodão nas narinas e etc, não vale a pena enumerar todas essas afirmações porque são do conhecimento geral.

Talvez essas práticas fossem usadas no séc. XIX ou mesmo no séc. XX, não se sabe se são verdadeiras porque se provas existissem, com o tempo desapareceram. No séc. XXI se alguém quer enfraquecer um touro para melhor ser toureado, recorre à prática de drogas. Mesmo os criadores de touros de lide reconhecem que as usam.

Anti-inflamatórios

Aspirinas, analgésicos e antipiréticos, cujo objectivo é minorar as dores e o coxear mascarando assim as lesões antes do reconhecimento anterior à lide.

Estimulantes cardio-respiratórios

Anfetaminas com efeito de estímulo cardíaco, circulatório, respiratório e de reflexos. Em exemplares com pouca força ajudam a uma melhoria.

Estimulantes do Sistema Nervoso

Nicotina em doses baixas, vitaminas B1 e B2 que têm como finalidade incrementar a energia e os reflexos.

Estimulantes musculares

Vitamina E.

Hormonas

Hormonas sexuais e anabolizantes cujo objectivo é produzir efeitos anabolizantes e eliminar o stress para dar ao touro uma maior resistência durante a lide. Os animais tratados com estas hormonas são exemplares que apresentam lentidão de movimentos, falta de agilidade e reflexos de fadiga rápida.

Em 2006 a Policía Judiciária iniciou uma investigação sobre a utilização de drogas nos touros de lide. De acordo com denúncias feitas por veterinários, teriam sido detectados vestígios de Rompun e Calmivet em carcaças de touros lidados em praças portuguesas.

O Rompun e o Calmivet, são substâncias analgésicas, e o objectivo da sua utilização será o de tornar os touros mais dóceis para o toureio a cavalo.

Estranhamente ou talvez não, os resultados dessa investigação permanecem no segredo dos deuses!

Como se pode concluir do exposto existem hoje em dias drogas, algumas delas perfeitamente indetectáveis, capazes de enfraquecer os touros.

Recorrer a afirmações que não se podem provar só enfraquece e descredibiliza a nossa luta pela abolição da tauromaquia.

Fonte


publicado por Maluvfx às 07:06
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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012
Intelectuais contra as touradas
(...) um cartaz sem data, mas provavelmente de meados do século passado (foi visado pela Comissão de Censura), no qual várias personalidades portuguesas se pronunciavam sobre touradas, a convite da Sociedade Protectora dos Animais.
(..) esse cartaz (..) transcrevia posições antigas contra as touradas que se tornaram actuais (...) transcrevo alguns dos depoimentos de intelectuais portugueses da época que nele constam:
"Os espectáculos bárbaros e cruéis, em que o prazer dos espectadores está precisamente na contemplação do martírio e, porventura, na agonia dos animais sacrificados, em que se integram as corridas de touros, o tiro aos pombos e os combates de animais uns contra os outros, devem ser banidos de todas as sociedades com pretensão a civilizadas".
Pedro José da Cunha, Professor e
 Antigo Reitor da Universidade de Lisboa
"Sou contra os 'touros de morte' como teria sido contra os bárbaros combates dos circos romanos, em que os homens eram atirados às feras. Não posso concordar, portanto, com que se atirem, nos nossos circos, as pobres feras aos homens!"
Leal da Câmara, Professor e Pintor de Arte
"Como homem e como professor não posso deixar de lhes enviar a minha mais completa e entusiástica adesão ao protesto levantada pela Sociedade Protectora dos Animais contra um espectáculo indigno do nosso tempo, da nossa mentalidade, da nossa civilização".
Aurélio Quintanilha, Professor da Universidade de Coimbra
"A multidão desvairada das praças de touros é a mesma multidão odiosa das arenas de Roma, é a mesma multidão que nas madrugadas das execuções se proscreve dos leitos para ir contemplar, numa bestialidade repugnante, o dos condenados à morte a contorcer-se no garrote ou na forca, a cabeça dos decapitados dependurando-se sangrenta, clamando vingança, não das mãos delicadas, da filha de Herodíades, mas sim das mãos imundas, indignas do carrasco."
Ferreira de Castro, Escritor 


 (...)
 Seria hoje possível encher um cartaz com depoimentos semelhantes de intelectuais portugueses?

Fonte: De Rerum Natura


publicado por Maluvfx às 11:40
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"A última corrida de touros em Arronches"
A infausta morte, ocorrida a 16 de Março, de Francisco Matias, membro do grupo de Forcados Amadores de Portalegre, quando treinava a chamada “sorte da gaiola” numa tenta em Esperança, Arronches, trouxe-me à memória o conto de Luís Rebelo da Silva (1822-1871) que li no meu terceiro ano do liceu, por constar de uma selecta de língua portuguesa.

Muita gente se lembra desse conto, “Última corrida de touros em Salvaterra”, que até já deu a letra de um fado. Mas, para quem nunca o leu, acrescento que também aí há uma morte na arena, embora de um cavaleiro, o Conde dos Arcos. O velho pai, o Marquês de Marialva, que assistia à lide, desceu da bancada para enfrentar o touro, conseguindo ao matá-lo vingar a morte do filho. A corrida era real pois D. José estava a assistir, acompanhado pelo Marquês de Pombal. Nesta altura, o melhor é dar a palavra ao escritor, que narra assim o diálogo entre o rei e o primeiro-ministro:

“Sebastião José de Carvalho voltava de propósito as costas à praça, falando com o monarca. Punia assim a barbaridade do circo. — Temos guerra com a Espanha, Senhor. É inevitável. Vossa Majestade não pode consentir que os touros lhe matem o tempo e os vassalos! Se continuássemos neste caminho... cedo iria Portugal à vela. — Foi a última corrida, marquês. A morte do conde dos Arcos acabou com os touros reais, enquanto eu reinar.” 

Fui agora averiguar a veracidade desta história. A morte do Conde dos Arcos foi, de facto, autêntica, embora não tenha ocorrido na praça de Salvaterra, sob o olhar do rei e da sua corte (D. José já tinha falecido), mas sim num “brinco”, à vara larga, num sítio da lezíria perto de Salvaterra. O escritor romanceou bastante o episódio de modo que este melhor entrasse na literatura... Se eu, em jovem, julguei verídica a conclusão, agora limito-me a desejar que o tivesse sido: o fim das corridas de touros em Salvaterra. Impressionado com as circunstâncias da morte do jovem portalegrense, ao mesmo tempo que apresento os pêsames à sua família e amigos, não posso deixar de pensar que uma boa forma de manter viva a memória do jovem – o sexto forcado a morrer em lides taurinas nos últimos vinte anos! - seria determinar que a última corrida em Arronches, tal como a de Salvaterra no conto, tivesse mesmo sido a última.

D. José pode não ter proibido as corridas de touros, mas D. Maria II fê-lo em todo o território nacional. Em 1836, doze anos antes de Rebelo da Silva publicar o seu conto, o ministro do Reino Passos Manuel promulgou um decreto proibindo as touradas:

 “Considerando que as corridas de touros são um divertimento bárbaro e impróprio de Nações civilizadas, bem assim que semelhantes espectáculos servem unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade, e desejando eu remover todas as causas que possam impedir ou retardar o aperfeiçoamento moral da Nação Portuguesa, hei por bem decretar que de hora em diante fiquem proibidas em todo o Reino as corridas de touros.” 

A proibição não durou mais do que escassos nove meses, tendo a tradição voltado a ser o que era. Nos dias de hoje surgiu, porém, uma nova interdição de touros. A maioria municipal socialista acaba de declarar Viana do Castelo a primeira “cidade anti-touradas” em Portugal, emulando 53 cidades espanholas. O que se vai fazer com a praça de touros de Viana? Pois a ideia da Câmara é excelente: transformá-la num Centro Ciência Viva, um espaço cultural aberto a todos e não apenas aos aficionados.

Aos defensores dos espectáculos tauromáquicos têm-se oposto os defensores dos direitos dos animais. Se os primeiros dizem que “se há alguém que cuida e que ama os touros são os próprios toureiros", os segundos ripostam que isso "é o mesmo que dizer que os pedófilos são os melhores amigos das crianças" (Público, 5/12/2008). Como argumento para o fim das touradas, não só em Arronches como no resto do país, julgo que nem é preciso invocar os direitos dos animais. Quando há uma absurda sucessão de mortes humanas, bastará invocar os direitos dos homens.»


 Crónica de Carlos Fiolhais in "Público"
Março 2009

(vale a pena lerem os comentários desta crónica)


publicado por Maluvfx às 10:15
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010
"Tourada é tortura. Não alimenta nem a barriga nem o espirito sofisticado."

O que é que um blogger de ciência tem a dizer sobre a tourada? Bem, acho que na realidade muita coisa. Sempre tenho defendido que a ciência nos pode ajudar a tomar melhores decisões morais e a fazer melhores escolhas.

E penso que para além da minha opinião pessoal de que a tourada é um espectáculo de horror e crueldade eu posso explicar porque é que ela é um espectáculo horror e crueldade, cuja apreciação requer uma frieza total em relação ao sofrimento do animal. Penso também poder argumentar que essa frieza, essa total desconexão com o que sente o animal, é um legado primitivo e que pessoas sofisticadas deveriam saber fazer melhor. Porque em regra, nós já não precisamos disso, e queremos uma sociedade solidaria com princípios de empatia. Que não podem deixar de se estender, naturalmente em menor grau, aos animais. Por uma questão de consistência e por uma questão de princípio.

Não é de facto muito esperto, mas sente.

Não existem muitos estudos científicos específicos sobre a espécie bovina no que respeita à sua inteligência ou desenvolvimento emocional. Sabemos com segurança que são animais que criam relações familiares. E que são animais sociáveis, e que têm reacções de demonstram empatia, medo, ansiedade, stress, dor, e ligações afectivas. São mamíferos. Têm um cérebro anatomicamente semelhante ao nosso, se bem que mais pequeno, mas ainda assim relativamente grande no contexto do mundo animal. São evolutivamente muito próximos de nós e isso diz-nos qualquer coisa do significado do seu comportamento.

Quem tem vacas como animais de estimação relata que são capazes de ligações afectivas também com as pessoas. (Googlem "Cow Pets"). Algo que é de esperar com um cérebro tão grande e tão semelhante ao nosso. Que é muito maior claro. Mas fundamentalmente tem as mesmas estruturas. Não se confunde com um cérebro de réptil ou de peixe, (embora as diferenças para as aves, se visto ao microscópio,  sejam menos do que se pensava (1) o que pode justificar a grande capacidade cognitiva de animais como os corvos (2).

Existem razões para considerar a empatia, sentir o que o outro esta a sentir, como um dos fundamentos das relações sociais, ou pelo menos um factor motriz. Isso é referido mesmo quando se aborda o assunto da cognição animal, se terão eles empatia ou não (3). Existem estudos e relatos que sugerem que inúmeros animais sentem empatia ((3) ou pro-empatia) e como é de esperar os mamíferos estão bem representados. Não especificamente os bovinos, mas é plausível pelas razões anteriores que assim seja. Lobos que tratam dos velhos e doentes, chimpanzés que reconhecem traços faciais, cães que parece adivinhar o que nós queremos. Existem relatos de que as vacas percorrem grandes distâncias para encontrar os seus bezerros. Mas a empatia intrínseca aos animais nem é muito pertinente. A nossa em relação a eles é que é.
A nossa falta de empatia pelos animais mais inteligentes e emocionalmente desenvolvidos como os mamíferos preocupa-me. Mostra-me que há pessoas que podem ser insensíveis à dor e ao sofrimento, mesmo que ele estejam lá indubitavelmente. Que não têm escrúpulos ao ponto de tirarem prazer da tortura lenta. Dizem que é por ser um animal irracional. Mas o sofrimento, a dor, o stress, estão lá na mesma. Irracional ou não. E no entanto são cegas a isso. Devemos torturar os nossos semelhantes que forem pouco inteligentes? O que dizer de países reais com média de QI de 60? Devemos tratá-los sem escrúpulos? Não acho nada.

Os bovinos são mamíferos. Quando se diz irracional não quer dizer irracional como em "a estrela do mar é irracional", ou "o peixe é irracional". E são emocionalmente mais perto de nós. Cérebros complexos sugerem processos complexos. Repito isto porque talvez a falta de empatia esteja relacionada com a ignorância. A ignorância de que o homem é algo absolutamente diferente dos animais, dotado de uma alma inventada (4) que lhe dará o direito de torturar a seu belo prazer. A ignorância de não ver em outros animais as mesmas sensações que nós temos. Talvez se vissem pudessem perceber que não é o ser irracional ou ser animal que conta. É o reconhecer que essas sensações estão lá. E saber o que elas significam. E dar importância a elas próprias. Para além do sujeito que as sente.

Respeitar os sentimentos.                                        

Quando um touro entra na arena, para onde quer que olhe vê a mesma coisa. O recinto é redondo, algo que ele não consegue compreender. Sente e sofre, mas a inteligência é limitada para compreender um recinto desenhado especificamente para criar este efeito. Fica perdido. O barulho de instrumentos musicais que ele não conhece confunde ainda mais e ajuda ao stress. Adrenalina e cortisol são libertados em altas doses. O sistema nervoso autónomo entra autonomamente em acção. É o pânico. O coração quer saltar da caixa torácica. O cérebro diz para correr ou lutar (fight ou flight (5)). Mas não há para onde ir. E depois aparece um ser humano a provocar.

Raios. A vida é lixada.

Mas não acaba aqui. Mais tarde ou mais cedo, com a ajuda de cavalos, espetaram-lhe tantas farpas nas costas que já perdeu demasiado sangue. Esta cansado. E nunca valeu a penas correr atrás de cavalos em recintos redondos. Só quando estiverem cansados é que há alguma hipótese. Mas eles revezam-se nas artimanhas. Há pegas de caras, mais provocações com o pano, e o sangue continua a escorrer. Menos sangue é menos oxigénio. Menos oxigénio é um cansaço tremendo. E depois eles espetam mais coisas nas costas.

A vida é mesmo lixada.

A força bruta contra a inteligência

O recinto é desenhado para não ter por onde fugir para o bovino mas ter escapatórias para os homens. Permite ainda ao cavalo correr em círculos sem ser encurralado por obstáculos naturais. Está aqui a inteligência da coisa. Claro que o cavaleiro ou toureiro também aprenderam andes de entrar na arena. Nada que vão fazer vai requerer muito da capacidade de reagir em novas situações que é a marca da casa da inteligência.

Por outro lado o touro esta numa situação totalmente nova. A ele, o ser dito irracional, é que se pede que tenha inteligencia. Mas nem pedem isso. Pedem apenas que o seu sistema límbico aprisione todo o cérebro numa resposta de luta, tal como pode acontecer com um humano encurralado.  Ou num paciente com stress pós traumático.

E se o recinto fosse desenhado quadrado, com pequenos becos nos cantos e não disséssemos ao cavaleiro e ao toureiro. E se ensinássemos o touro (sim, eles aprendem) a ignorar a capa e apenas fazer mira ao corpo? E se o ensinássemos a por a cabeça de lado na pega de caras? Mas não disséssemos nada aos "valentes" da pega? Bem, deixem-me adiantar que eu me oporia a isto. É uma experiência de pensamento(6) que eu penso que não precisa de ser executada realmente para servir de argumento.  De que o que está em questão não é bem inteligência. Essa foi usada à algum tempo atrás quando o primeiro recinto quadrado deixou o espectáculo correr para o torto e alguém percebeu que tinha de ser redondo. E quando cortaram as pontas dos cornos também mostraram alguma inteligência. Mas quem copiou... Népia. Nem valentia. Só treta.

Os argumentos a favor da tourada - como refuta-los consistentemente.

A maioria dos argumentos a favor da tourada são apelos à tradição(7). Mas uma coisa não se torna boa só porque é repetida muitas vezes. A sociedade deve evoluir assim como a moral. A antiguidade por si não é um posto. Se não ainda andávamos a levar o pai para morrer no monte e a permitir a pedofilia.

Outra grande quantidade deles são apelos à popularidade (8). Mas só porque muita gente gosta de uma coisa não quer dizer que esteja correto. As coisas têm de ser discutidas e avaliadas por aquilo que são. Se não, dar Cristãos de comer a leões está correto desde que haja um publico a aplaudir (9).

Outros argumentos muito ouvidos são algo como: "também torturas animais para comer" ou "só se deixares de comer é que podes falar". Bem, isto é falso. O que interessa não é o que faz ou deixa de fazer o interveniente da discussão. É se os argumentos são válidos ou não no que respeita ao caso. Se um fumador insistir que fumar faz mal, ele estará a dizer a verdade na mesma, quer fume quer não. E depois, um erro não justifica outro erro. Mesmo que não houvesse uma preocupação crescente com o bem estar animal na pecuária, um argumento do género: "temos muitos problemas logo não vale a pena resolver nenhum" é treta. Se não nunca faríamos nada. Ficávamos sempre infinitamente a resolver o mesmo problema até à perfeição.

E depois parece que pelo menos peixe, ovos e leite fazem falta na nossa alimentação. Não é como abdicar da empatia para desfrutar de um espectáculo de terror. Podemos sim, comer muito, mas muito menos carne, eventualmente deixar mesmo de comer carne de mamífero(10), sem que isso nos prejudique e minimizando o sofrimento animal. Mas mesmo que isto tivesse errado de todo, mesmo que a produção de alimentos fosse algo desnecessário e deplorável na sua essência, não é por isso que não devemos sempre apontar para fazer o melhor possível, seja no que for.

E uma sociedade que respeita os animais, certamente respeitará ainda mais os outros animais de duas patas. Na realidade verifica-se que há alguma correlação entre a preocupação do bem estar animal e o estado socio-económico do pais. Basta ver que países mais ricos que nós proíbem a tourada e têm mais cuidado com os seus animais. Se é porque podem acho bem. Mas a tourada não é porque nós não podemos, como em relação a aspectos da alimentação. É porque não só não queremos. Porque alguns não só não sentem empatia com os bichos como ainda tiram prazer no seu sofrimento.

E é nesta sociedade (em relação a este aspecto) que queremos educar os nossos filhos? É este tipo de mensagem que queremos dar? Que o sofrimento é aceitável desde que se encontre uma explicação ad-hoc, inconsistente com tudo o resto? Desde que se possa dizer que já se faz há muito tempo? Desde que se possa dizer que muita gente gosta? Desde que se possa dizer que é tradição? E que faz parte da identidade de um povo... E têm orgulho nisso? Não arranjam nada melhor com que se identificarem? Tem de ser com um freak show troglodita?

Ouve uma altura em que era preciso matar para viver. Ainda hoje é. Alguns legados da evolução biológica são bons, outros maus. Acho que era altura de dar um passo evolutivo moral mais e abdicar da necessidade de sangue e sofrimento e fazer disso uma regra consistente. Sofrimento? - só o que não puder ser evitado. Infelizmente o mundo não é perfeito. Mas não é por isso que não devemos tentar melhor.

(1) http://universityofcalifornia.edu/sites/uchealth/2010/07/02/human-brains-bird-brains/
(2) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/01/corvo-aprefeicoa-ferramenta.html
(3) http://plato.stanford.edu/entries/cognition-animal/#EmoEmp
(4) http://cronicadaciencia.blogspot.com/search/label/dualismo
(5) http://en.wikipedia.org/wiki/Fight-or-flight_response
(6) http://plato.stanford.edu/entries/thought-experiment/
(7) http://www.csun.edu/~dgw61315/fallacies.html#Argumentum%20ad%20antiquitatem
(8) http://www.csun.edu/~dgw61315/fallacies.html#Argumentum%20ad%20populum
(9) esta não tive pachorra para encontrar a referencia. :P
(10) http://cronicadaciencia.blogspot.com/2010/09/precisamos-mesmo-de-carne-e-se-for.html

 Leitura sugerida em outros blogues:

 http://ktreta.blogspot.com/2010/09/treta-da-semana-patetico.html 
http://pensamentoalinhado.blogspot.com/2009/06/direitos-dos-animais.html


PS: Tecnicamente existe uma diferença entre sentir e saber que se sente. Ou seja, existe uma diferença entre sentir e ter consciência dessa sensação. Não creio que seja relevante para avaliar crueldade. A dor e o sofrimento estão lá. Também não me parece nada que a consciência seja algo que exista ou não exista. A investigação actual inclui pessoas que consideram haver graus de consciência. Parece-me óbvio que a vaca não tem o grau de consciência do chimpanzé que por sua vez não tem o mesmo grau que os humanos. Mas a proximidade é provavelmente muito maior entre nós e a vaca que entre a vaca e o peixe.

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publicado por Maluvfx às 11:51
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