Ética é o conjunto de valores, ou padrões, a partir dos quais uma pessoa entende o que seja certo ou errado e toma decisões. A ética é importante por que respeita os outros e a dignidade humana.
Quarta-feira, 11 de Julho de 2012
Touradas: Factos, Razão e Ética – Parte III (Maiorias e Minorias)
24 DE MAIO DE 2009
Por Miguel Moutinho, Presidente da ANIMAL ©

A indústria tauromáquica em Portugal (assim como noutros países, diga-se) está, mais do que nunca, numa situação de crise de aceitação social e de apoio político (algo que tem cada vez menos, enfrentando cada vez mais oposição e crítica ou, pelo menos, distanciamento), o que tem também reflexos económicos. É, por isso, uma indústria que, mais do que nunca, se encontra em estado de verdadeiro desespero. E, como indústria que é, tem estado a apresentar inúmeras evidências de quão ameaçada se está a sentir, o que teve o seu pico numa primeira manifestação pró-tauromaquia em frente ao Campo Pequeno (a primeira manifestação do género alguma vez feita, que confessou, de forma explícita, quão social e politicamente pressionada está esta indústria). Esta indústria está também a tentar dar respostas aos seus críticos e a preparar contra-ataques para defender a tauromaquia. Isto tem vindo a acontecer, e sabe-se que será intensificado, mas é algo que está condenado ao insucesso, não só porque é uma indústria que desenvolve uma actividade indefensável – a de torturar animais em nome do entretenimento – mas também porque todas as linhas de resposta ou contra-ataque da indústria tauromáquica são ostensivamente inválidas, inúteis e não respondem nem resolvem o problema que se lhes coloca. Numa série de artigos, da qual o presente faz parte, a ANIMAL analisa, individualmente, e com base em factos, na razão e numa ética universal e objectiva, cada resposta / contra-ataque da indústria tauromáquica às críticas que enfrenta.

1) Tem sido frequente, e começa a ser uma insistência muito repetida, a alegação feita pelos defensores das touradas de que as pessoas que se opõem às touradas são uma minoria, enquanto as pessoas que gostam de touradas são uma maioria. O raciocínio que preside a esta alegação é o seguinte: do facto de haver poucas dezenas ou centenas de activistas contra as touradas a participar nas manifestações semanais promovidas pela ANIMAL em frente ao Campo Pequeno quando ali há tourada, enquanto alguns milhares de aficionados entram na praça para assistirem às mesmas touradas, pode-se concluir que o mesmo ocorre, em termos globais e de forma proporcional, na sociedade portuguesa: poucos opõem-se às touradas enquanto muito mais gostam delas e querem que elas continuem.

Esta ideia enferma, antes de mais, de um problema de raciocínio evidente: generaliza a partir de casos particulares não representativos do fenómeno sobre o qual a generalização é feita. Tomemos como exemplo a noite de 7 de Maio do ano corrente, em que cerca de 200 pessoas participaram na manifestação anti-touradas promovida pela ANIMAL que decorreu no Campo Pequeno, enquanto cerca de 7.000 aficionados terão entrado na Praça de Touros do Campo Pequeno para assistir à tourada que ali decorreu. Significa isto que há apenas 200 pessoas que se opõem às touradas e 7.000 pessoas a favor destas? Claro que não. Significa isto que, proporcionalmente, há muito menos pessoas que se opõem às touradas na sociedade portuguesa enquanto muitas mais são a favor delas? Também não. E porquê? Porque aquela situação particular não é de todo ilustrativa / representativa da sociedade – que é maioritariamente composta por indivíduos que nem são aficionados das touradas, nem são activistas anti-touradas. Uns gostam de touradas, outros são-lhes indiferentes e outros detestam-nas e querem que elas sejam proibidas. Só estudos científicos, que tenham por base perguntas formuladas de forma correcta, clara e não dirigida, que sejam realizados por empresas de sondagens qualificadas e insuspeitas e que sejam rigorosamente preparados por profissionais de sociologia e estatística, por exemplo, é que poderão dar respostas válidas neste sentido. E a verdade é que as poucas sondagens com cientificidade e rigor que existem sobre o assunto das touradas apresentam resultados que indicam que uma percentagem grande ou muito grande dos portugueses não gosta de touradas. Segundo uma sondagem DN/Marktest de 25 de Julho de 2002, já nesse ano havia 74,5% dos portugueses que não gostavam de qualquer tipo de touradas, com ou sem morte dos touros na arena. Cinco anos depois, uma resposta formulada em termos mais fortes pelos portugueses (no sentido em que se pronunciaram acerca da proibição das touradas e não apenas sobre se gostam delas ou não) foi apresentada no contexto de uma sondagem MetrisGfK/CIES/ISCTE, realizada entre Fevereiro e Março de 2007, segundo a qual 50,5% dos portugueses queriam, já há mais de dois anos atrás, as touradas proibidas em todo o país (enquanto apenas 39,5% discordavam de uma tal proibição), enquanto 52,4% dos portugueses queriam que não fossem autorizadas touradas nas cidades e vilas onde residem, nomeadamente através da transformação oficial destas localidades em cidades ou vilas anti-touradas (enquanto apenas 36,8% discordavam desta medida). Significa isto que os estudos preparados e realizados de forma rigorosa e científica mostram exactamente o contrário daquilo que os defensores das touradas gostariam que acontecesse – a maioria expressiva ou extremamente expressiva dos portugueses quer as touradas proibidas ou, pelo menos, não gosta de qualquer tipo de touradas.

Há ainda um outro aspecto que deve ser referido a propósito dos números de apoiantes e opositores das touradas – e que é importante para compreender as dimensões de quaisquer movimentos com visões opostas integrados em qualquer área da sociedade portuguesa. Há manifestações anti-touradas que têm apenas 50, 100 ou 200 participantes. Mas também há manifestações anti-touradas que têm 500, 1.000 ou 2.000 participantes. Num país onde é incomum as pessoas manifestarem-se nas ruas por razões éticas e estritamente altruístas – em defesa dos direitos dos animais, em defesa dos direitos humanos, em defesa da conservação da natureza ou da protecção do equilíbrio ecológico do planeta, etc. –, o número de manifestantes nunca pode ser visto como um sinal proporcionalmente representativo do número de apoiantes da causa que esse movimento que se está a manifestar tem. Por exemplo, uma manifestação de extrema-direita, se estiver bem organizada e conseguir mobilizar todos os seus apoiantes, pode conseguir ser bastante participada – mas tal não significará que a maioria dos portugueses se revê naquela visão política. E, do mesmo modo, se uma acção de protesto contra a tortura de prisioneiros políticos promovida pela Amnistia Internacional tiver apenas 20 manifestantes, daí não se seguirá – ao contrário do que implicaria a lógica dos aficionados das touradas – que só uma minoria de portugueses é que se opõe à tortura de prisioneiros políticos.

Por último, a propósito de questões éticas, de maiorias e minorias, de democracias, votações e referendos, é ainda fundamental estabelecer o seguinte ponto. Uma questão ética deve ser analisada e tratada com base em factos relevantes para a discussão, para o tratamento dos quais em tudo releva o recurso à melhor informação cientificamente obtida e validada que estiver disponível acerca desses factos e que seja relevante para a discussão, e por meio do uso de raciocínios válidos e de um genuíno interesse em chegar a conclusões verdadeiras – e não às que são apenas convenientes. Ora, se de uma tal análise de questões éticas como as touradas, a tortura de prisioneiros políticos, etc., resultar a conclusão de que são práticas eticamente condenáveis que não devem ser permitidas em circunstância alguma, isso será o bastante para levar sociedades, governos e parlamentos a pôr termo a essas práticas. É com base neste processo de análise e decisão ética que se devem tratar questões éticas e não com base em gostos subjectivos variáveis de indivíduos ou na opinião eventualmente mal-informada de maiorias ou minorias. É por isso que, se por um lado é, apesar de tudo, nas democracias que os direitos humanos e os direitos dos animais são mais respeitados e protegidos, por outro lado, o respeito pelos direitos humanos e pelos direitos dos animais nunca deve depender do que pensam as maiorias acerca destes direitos. São direitos que nunca devem ser votados nem devem ser referendados. São valores de tal maneira fundamentais, que devem estar consagrados nas constituições políticas dos estados e que, independentemente das orientações políticas de quem governe os estados e de quem eleja quem os governe, devem estar sempre juridicamente protegidos. Não o fazer será errado, injusto e extremamente perigoso. Segue-se daqui que, apesar de ser verdade que a maioria dos portugueses se opõe às touradas, não é isso que faz com que elas sejam erradas e devam ser abolidas. Pelo contrário, é porque há factos e razões morais apoiadas nesses factos que fazem com que as touradas sejam erradas e devam ser abolidas que, felizmente, a maioria dos portugueses já percebeu e concluiu que elas devem ser proibidas.

2) É também comum os defensores das touradas dizerem que “a tourada é o segundo espectáculo pago com mais espectadores a seguir ao futebol”, aqui alegando que, como tal, do suposto grande interesse do público que a tourada teria (e que não é verdadeiro, como de seguida se demonstra), resultaria a implicação de que a tourada seria imediatamente aceitável.

Esta afirmação – além de ser totalmente irrelevante para a discussão porque em nada contribui para fazer das touradas uma prática eticamente aceitável – é objectivamente errada e falsa. Errada, desde logo, porque o futebol não é um espectáculo, mas sim uma actividade desportiva. Mas, mais do que errada neste sentido, esta é uma afirmação falsa.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) acerca das actividades culturais realizadas em Portugal e da resposta que estas tiveram dos espectadores em 2006 (sendo que, depois destes dados, foram publicados novos resultados em 2007 que não reflectiram mudanças importantes, no âmbito da tauromaquia, face aos números de 2006), no ano de 2006 realizaram-se 24 717 sessões de espectáculos ao vivo, com um total de 8,8 milhões de espectadores. Destes, os espectáculos com maior número de espectadores foram os concertos de música ligeira, com 3,2 milhões de espectadores. O teatro teve 1,6 milhões de espectadores. A seguir ao teatro, os espectáculos de variedades, música clássica, dança e, por último, circo foram os que tiveram mais espectadores. E só depois surge a tauromaquia, com uma pequeníssima percentagem de 2,4% de espectadores na contagem geral de espectadores em espectáculos ao vivo. Nesse ano, 10,3 milhões de visitantes percorreram os museus do país, mais de 5,5 milhões de visitantes foram a exposições temporárias de artes plásticas e o cinema registou 16,4 milhões de espectadores. Ora, como facilmente se conclui, não só em relação aos outros espectáculos ao vivo, como também em relação a todas as outras actividades culturais, a tauromaquia registou um número extremamente pequeno de espectadores – enquanto muitas mais pessoas, felizmente, foram a espectáculos de música, teatro, dança, visitaram museus e exposições e foram ao cinema. Depois da análise destes dados do INE, facilmente concluímos que a afirmação vulgarmente avançada pelos defensores das touradas de que “a tourada é o segundo espectáculo pago com mais espectadores a seguir ao futebol” é, numa palavra, risível.

Finalmente, importa ainda analisar um outro valor mais recente. De acordo com o Relatório de Actividade Tauromáquica de 2008, publicado pela Inspecção-Geral das Actividades Culturais, em 2008 os espectáculos tauromáquicos em Portugal registaram a entrada de 698.142 espectadores. Com base nestes dados, os defensores das touradas alegraram-se grandemente e passaram a dizer que, em 2008, 698.142 pessoas foram às touradas em Portugal. No entanto, isto não é verdade. Estes números referem-se sempre às entradas de espectadores em praças de touros – e, obviamente, não à entrada de pessoas diferenciadas. Ou seja, se considerarmos que a maior parte das pessoas que vai a touradas vai a várias touradas, sendo a mesma pessoa espectadora de diversas touradas, isso significa que, por exemplo, na época tauromáquica de 2008, uma mesma pessoa pode ter sido espectador 5, 10 ou 15 vezes em diversas touradas, numa mesma zona ou em diversas zonas do país, contando, neste caso, como espectador 5, 10 ou 15 vezes, mas continuando a ser apenas uma pessoa. Logo, é fundamental ser-se rigoroso e afirmar apenas que, em 2008, as touradas registaram a entrada de 698.142 espectadores e não de 698.142 pessoas (do mesmo modo que, em 2006, os museus registaram a entrada de 10,3 milhões de visitantes e não de 10,3 milhões de pessoas diferentes – ou a população portuguesa quase não teria chegado para corresponder a este número de visitantes).


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Touradas: Factos, Razão e Ética – Parte II (Os ataques Ad Hominem e os apelos à autoridade)
24 DE MAIO DE 2009
Por Miguel Moutinho, Presidente da ANIMAL ©

A indústria tauromáquica em Portugal (assim como noutros países, diga-se) está, mais do que nunca, numa situação de crise de aceitação social e de apoio político (algo que tem cada vez menos, enfrentando cada vez mais oposição e crítica ou, pelo menos, distanciamento), o que tem também reflexos económicos. É, por isso, uma indústria que, mais do que nunca, se encontra em estado de verdadeiro desespero. E, como indústria que é, tem estado a apresentar inúmeras evidências de quão ameaçada se está a sentir, o que teve o seu pico numa primeira manifestação pró-tauromaquia em frente ao Campo Pequeno (a primeira manifestação do género alguma vez feita, que confessou, de forma explícita, quão social e politicamente pressionada está esta indústria). Esta indústria está também a tentar dar respostas aos seus críticos e a preparar contra-ataques para defender a tauromaquia. Isto tem vindo a acontecer, e sabe-se que será intensificado, mas é algo que está condenado ao insucesso, não só porque é uma indústria que desenvolve uma actividade indefensável – a de torturar animais em nome do entretenimento – mas também porque todas as linhas de resposta ou contra-ataque da indústria tauromáquica são ostensivamente inválidas, inúteis e não respondem nem resolvem o problema que se lhes coloca. Numa série de artigos, da qual o presente faz parte, a ANIMAL analisa, individualmente, e com base em factos, na razão e numa ética universal e objectiva, cada resposta / contra-ataque da indústria tauromáquica às críticas que enfrenta.


Não é uma ideia nova, mas tem sido mais comum, nos últimos tempos, os defensores das touradas tentarem proteger a tauromaquia através de ataques a pessoas e às suas supostas fragilidades (com falácias ad hominem) ou através de elogios e apelos à autoridade de pessoas (argumento da autoridade).


1) No primeiro caso, tem sido comum os defensores das touradas acusarem a ANIMAL e os activistas anti-touradas de oporem às touradas, fazendo campanhas e promovendo manifestações contra estas, porque, segundo os defensores das touradas, estes gostam de protagonismo e querem promover-se através da oposição que fazem às touradas.


Este é um dos contra-ataques típicos. Começa por ostensivamente esquivar-se à questão central – as razões éticas pelas quais a ANIMAL e os activistas anti-touradas se opõem às touradas – para se limitar a lançar apenas um ataque pessoal contra quem se opõe às touradas. Este contra-ataque é falacioso e não responde ao problema em discussão. É a chamada falácia ad hominem. Em vez de se atacar o argumento apresentado pelos indivíduos que se opõem às touradas, ataca-se os próprios indivíduos pessoalmente, deixando completamente esquecida a única parte que interessa na discussão – o(s) argumento(s) ético(s) contra as touradas. Ou seja, em vez de se apresentarem contra-argumentos que invalidariam os argumentos éticos contra as touradas, aquilo que os defensores fazem é atacar os defensores dos animais.


Para percebermos melhor quão falacioso, tolo e ineficaz é este contra-ataque, vejamos o seguinte exemplo. Suponhamos que, como acontece muitas vezes, a organização de defesa dos direitos humanos X (chamemos-lhe Organização X) está a acusar o governo do país Y (chamemos-lhe Governo Y) de permitir ou ordenar a execução de actos de violação de direitos humanos. Suponhamos que, neste caso, o Governo Y responde à Organização X acusando-a e aos seus dirigentes e membros de se quererem promover através da crítica a este Governo, assim tentando obter o protagonismo que, defende o Governo Y, a Organização X e os seus membros procuram. Neste caso, a Organização X está a acusar o Governo Y de violar, por acção ou omissão, os direitos humanos, baseando essa acusação num argumento moral de defesa dos direitos humanos. E o Governo Y, em vez de responder à acusação moral de que é alvo, a propósito dos direitos humanos que é acusado de violar, por acção ou omissão, ataca *pessoalmente* a Organização X e os seus membros, escusando-se totalmente a responder ao que está em causa – a violação dos direitos humanos de que é acusado de permitir ou ordenar.


Este exemplo ajuda-nos a compreender, de forma óbvia, que esta resposta dos defensores das touradas não serve para defender as touradas, levantando uma questão completamente alheia ao debate, sem responder, em momento algum, à questão principal – a dos argumentos éticos contra as touradas.


Acresce que este contra-ataque revela um tremendo cinismo. Dizer que a ANIMAL se opõe às touradas para se promover é o mesmo que dizer que a Amnistia Internacional condena o Governo do Nepal e a ausência de medidas de protecção dos direitos das mulheres por parte deste governo como meio de obter notoriedade, que a UNICEF denuncia a fome e a pobreza extrema e o modo como estas afectam dramaticamente as crianças para obter protagonismo, e assim por diante. Seria o mesmo que dizer que Martin Luther King lutou civicamente – e acabou por ser assassinado em resultado dessa luta – para obter reconhecimento, e que Gandhi, Mandela e outros indivíduos denunciaram graves erros morais e políticos e trabalharam pela justiça só porque queriam ficar na História como grandes líderes morais. E, como é óbvio, esta é uma ideia absolutamente contestável. Felizmente, há muitas pessoas no mundo que querem apenas ajudar quem precisa de ajuda e defender quem precisa de ser defendido, procurando, ora individualmente, ora no contexto da actividade de organizações, trabalhar para eliminar situações diversas de injustiça. E é só como um efeito secundário não pretendido que essas pessoas ou organizações poderão vir a obter notoriedade – mas não porque a procurem ou pretendam.


2) No segundo caso, que é também bastante comum, os defensores das touradas tentam anunciá-las como respeitáveis porque figuras importantes gostam de touradas e querem que elas sejam mantidas. Como noticia o site tauromáquico “Farpas”, os defensores das touradas vão tentar envolver figuras públicas – tais como, segundo os mesmos, Manuel Alegre e Joaquim Letria, entre outros – na defesa das touradas, para ajudarem no contra-ataque que a indústria tauromáquica estará a preparar em resposta à ofensiva cívica que a ANIMAL tem conduzido contra a tauromaquia. Os defensores das touradas previsivelmente defenderão que, uma vez que figuras públicas tais como Manuel Alegre, Jorge Sampaio e Joaquim Letria, entre outras, gostam de touradas e querem que elas continuem a ser permitidas, então as touradas deverão continuar a ser permitidas.


Trata-se de mais uma falácia, conhecida como o “apelo à autoridade”. Não só as figuras públicas que gostam de touradas não estão especialmente qualificadas para travarem uma discussão ética acerca das touradas – não são especialistas em ética, pelo que a sua opinião não é especialmente digna de consideração para a discussão – como também nem sequer tentam esboçar uma resposta moral aos argumentos morais apresentados contra as touradas. Na verdade, aqui, os defensores das touradas esperam que o mero nome destes apreciadores de touradas famosos sirva para convencer a sociedade de que as touradas devem continuar a ser permitidas. E, mais do que isso, os defensores das touradas esperam que o simples facto de Manuel Alegre ou Jorge Sampaio dizerem publicamente que são aficcionados das touradas e que acham que estas devem continuar a ser permitidas seja suficiente para que a opinião do público fique influenciada de modo a acreditar que as touradas devem continuar a ser permitidas por lei.


Ora, obviamente, os factos em discussão não mudam em função de quem se pronuncia acerca deles. Não é porque Manuel Alegre é a favor das touradas e Pedro Abrunhosa contra que as touradas são ou não moralmente permissíveis. Aquilo que deve levar os indivíduos e as sociedades a decidirem se as touradas devem continuar a ser permitidas por lei nos países onde ainda existem nem por um momento deve incluir o facto irrelevante de Ernest Hemingway ter sido um apaixonado por touradas enquanto George Bernard Shaw foi um acérrimo defensor dos direitos dos animais. O que está em discussão é, mais uma vez, se existe alguma boa razão para que um grupo de indivíduos possa continuar a perseguir, molestar e torturar animais apenas para retirarem prazer e/ou lucro dessa actividade. E, até que os defensores das touradas apresentem essa boa razão que falta – e que, até prova em contrário, não existe –, a única conclusão que se pode retirar é que as touradas devem ser proibidas. Sem hesitações.


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Touradas: Factos, Razão e Ética – Parte I (O Sofrimento dos Touros)
24 DE MAIO DE 2009
Por Miguel Moutinho, Presidente da ANIMAL ©

A indústria tauromáquica em Portugal (assim como noutros países, diga-se) está, mais do que nunca, numa situação de crise de aceitação social e de apoio político (algo que tem cada vez menos, enfrentando cada vez mais oposição e crítica ou, pelo menos, distanciamento), o que tem também reflexos económicos. É, por isso, uma indústria que, mais do que nunca, se encontra em estado de verdadeiro desespero. E, como indústria que é, tem estado a apresentar inúmeras evidências de quão ameaçada se está a sentir, o que teve o seu pico numa primeira manifestação pró-tauromaquia em frente ao Campo Pequeno (a primeira manifestação do género alguma vez feita, que confessou, de forma explícita, quão social e politicamente pressionada está esta indústria). Esta indústria está também a tentar dar respostas aos seus críticos e a preparar contra-ataques para defender a tauromaquia. Isto tem vindo a acontecer, e sabe-se que será intensificado, mas é algo que está condenado ao insucesso, não só porque é uma indústria que desenvolve uma actividade indefensável – a de torturar animais em nome do entretenimento – mas também porque todas as linhas de resposta ou contra-ataque da indústria tauromáquica são ostensivamente inválidas, inúteis e não respondem nem resolvem o problema que se lhes coloca. Numa série de artigos, da qual o presente faz parte, a ANIMAL analisa, individualmente, e com base em factos, na razão e numa ética universal e objectiva, cada resposta / contra-ataque da indústria tauromáquica às críticas que enfrenta.

Como a questão central acerca da tourada se prende com o sofrimento que é infligido aos touros e que constitui a base da crítica às touradas, esta é a primeira questão que os defensores das touradas tentam resolver, nomeadamente defendendo que os touros não sofrem nas touradas.

De acordo com os defensores das touradas, o touro é um animal especial que, como nenhum outro na Terra, tem uma aptidão extraordinária para não sentir sofrimento (ou para sofrer menos) quando é exposto a actos que, tais como aqueles que constituem a prática do toureio, são profundamente invasivos e destrutivos. De acordo com os defensores das touradas, em face destes actos (como o acto de espetar, no dorso dos touros, bandarilhas com ferros pontiagudos e com arpões aguçados nas pontas), os touros têm uma reacção completamente diferente da que teriam todos os outros animais na mesma situação – todos os outros animais sofreriam tremendamente e ficariam profundamente lesionados se sofressem estas agressões, mas os touros, como são, segundo os defensores das touradas, especiais, não sofrem (ou sofrem menos, como alguns dizem).

Há três principais pontos que os defensores das touradas referem para sustentar esta tese. De seguida, apresento estes pontos, assim como as objecções que de imediato levantam.

1) Os touros não sofrem (ou sofrem menos) nas touradas porque foram seleccionados geneticamente para serem especialmente resistentes para virem a ser usados em touradas, pelo que, uma vez nestas, não sofrem.

É interessante notar, desde logo, que, ao declararem que os touros usados para touradas foram seleccionados geneticamente para esse fim, os defensores das touradas estão consequentemente a reconhecer algo de muito importante que põe em causa o “argumento ecológico” a favor da manutenção das touradas: os touros usados em touradas são bovinos domésticos pertencentes a uma das muitas variedades de bovinos que existem, não constituindo, por isso, uma espécie com importância ecológica (embora, evidentemente, cada touro tenha uma importância moral enquanto animal possuidor de dignidade) que já existia na natureza e que importa preservar (embora deva ser dito que é perfeitamente possível preservar esta variedade de bovinos, sendo porém certo que isso só fará sentido se não for para que os membros dessa variedade de bovinos sejam vítimas de tortura em touradas).

Em segundo lugar, a selecção genética destes bovinos não os tornou imunes à dor. Tal não seria sequer possível. A dor é um mecanismo extraordinariamente importante para a sobrevivência de qualquer animal. Se um animal não sentir dor, não evitará o que lhe causará a dor e estará em perigo de vida a todo o momento, não tendo qualquer capacidade de sobrevivência relativamente às muitas ameaças que enfrentará. De resto, é possível desde logo identificar inúmeras evidências comportamentais de que os touros sofrem – basta avaliar o comportamento dos touros em praça, quando estão a ser toureados, e perceber como eles exibem sinais de exaustão, confusão e medo, além de ostentarem ferimentos muito graves, jorrando sangue de forma tremendamente abundante, o que não só os debilita como também são lesões que estão inevitavelmente associadas à experiência da dor (tal como qualquer outro animal, os touros têm um sistema nervoso complexo, tendo, obviamente, terminais nervosos nas zonas onde os ferros são cravados, condição neuro-fisiológica que lhes permite, evidentemente, experienciar o sofrimento físico, e experienciá-lo profundamente, quando são espetados com as farpas).

2) Os touros não sofrem (ou sofrem menos) nas touradas porque, como estão a ser agredidos, no momento em que estão a reagir a essas agressões, estão apenas concentrados em defender-se e contra-atacar, não sofrendo nesses momentos. Alguns defensores das touradas dizem até que o facto dos touros reagirem é a prova de que não sofrem porque, segundo os mesmos, a reacção a uma agressão constitui prova de que o animal agredido não sofre.

Esta alegação coloca, antes de mais, um problema. Os defensores das touradas generalizam sempre a bravura e imunidade à dor como uma características que todos os chamados “touros bravos” terão, afirmando que é o facto de serem “bravos” (o que quer que isso signifique, pois nunca foi definido) que faz com que estes touros, diferentemente de todos os outros bovinos e de todos os outros animais, não sintam dor quando são agredidos. Como resolverão, então, a questão dos chamados “touros mansos”? É bastante comum entrarem em touradas touros que, por muito provocados que sejam, não reagem ou reagem menos. Isto pode dever-se a inúmeros factores, mas não é certamente alheio ao facto de haver diferenças de personalidade entre indivíduos – do mesmo modo que uns cães são mais activos e destemidos e outros cães são mais passivos e mais receosos, isso também acontece com os touros. Porém, isto põe em causa a tese tauromáquica que defende que os “touros bravos” são “animais de combate” sempre preparados para a luta com os toureiros e forcados, uma vez que, afinal, muitos nunca chegam a entrar nesta luta porque não reagem, enquanto outros, que reagem pouco, são toureados mesmo assim mas acusados pelos toureiros e aficcionados de serem “mansos” ou de não serem “bons touros”. A ocorrência deste fenómeno é de tal modo frequente, que, só por si, deita por terra o mito do “touro bravo”.

Mas voltemos à alegação de que a reacção às agressões de que são alvo na tourada indicia que os touros não sofrem. Esta alegação radica numa contradição: por um lado, reconhece que os touros estão a reagir a algo que lhes provocou essa reacção, nomeadamente às agressões de que são alvo quando são espetados com ferros, mas, por outro lado, sugere que essa reacção de defesa e contra-ataque não tem origem em sofrimento. Então – é caso para perguntar –, tem origem em quê? O que levará os touros a reagir e a contra-atacar, se não a dor que lhes foi infligida, os ferimentos que lhes foram causados? Além disso, como é que se pode, plausivelmente, sugerir que o facto de um indivíduo estar a reagir é demonstrativo de ausência de dor e que esse estado de reacção imuniza esse indivíduo à dor? Mais uma vez, aqui temos que lembrar que a dor existe por uma razão – é um instrumento de sobrevivência. E, do mesmo modo que é a dor que leva um animal a evitar situações que lhe possam causar dor, é também a dor que leva esse mesmo animal a, uma vez que uma situação lhe cause dor (tal como uma agressão), ele reaja contra o agressor (o toureiro) para evitar mais agressões. Isso acontece muito claramente nas touradas, sendo, além do mais, comum ver touros a tentarem livrar-se dos ferros que lhes são cravados e a produzirem sons típicos de manifestação de dor quando os toureiros lhes espetam as farpas. Os touros reagem, de facto, uns mais, outros menos, mas eles reagem a algo e por uma razão – reagem à agressão e à dor que a agressão lhes causou e reagem para não serem mais agredidos e numa tentativa de se livrarem do que lhes está a causar tanto sofrimento. E só os defensores das touradas é que parecem não perceber esta evidência.

3) Os touros não sofrem (ou sofrem menos) nas touradas porque, nas touradas, se gera uma reacção hormonal especial que fará com que eles, durante a lide, fiquem quase ou totalmente imunes à dor.

Esta ideia, que já era defendida há muito tempo nos meios tauromáquicos, ganhou um corpo aparentemente mais forte quando, recentemente, um professor de medicina veterinária da Universidade Complutense de Madrid, Juan Carlos Illera, anunciou ter estudado o comportamento hormonal dos touros usados em touradas para concluir, segundo o mesmo, que, nas touradas, os touros sofrem muito menos e sentem muito menos stress do que, imagine-se, sentirão quando são transportados das ganadarias para as praças de touros e quando são mantidos nos curros das praças de touros sem chegarem a ser toureados. Ou seja, segundo Illera, os touros sofrem mais quando não lhes é infligida dor (no transporte e nos curros) do que quando lhes é infligida dor (na lide) porque, segundo o mesmo, ao serem bandarilhados, os touros têm reacções hormonais que os tornam quase completamente insensíveis à dor e livres de stress. Importa dizer, em primeira instância, que este estudo nunca foi publicado em qualquer revista científica nem nunca foi revisto por veterinários independentes – foi apenas publicado parcialmente em revistas tauromáquicas e citado em congressos de tauromaquia. Em segundo lugar, o professor Illera nunca respondeu às perguntas que recebeu de outros médicos veterinários que lhe dirigiram perguntas muito específicas acerca das muitas perplexidades que o dito estudo levanta. Em terceiro lugar, tudo o que deste estudo foi tornado público e tudo o que foi possível perceber do mesmo, de como foi feito e de como se chegou às conclusões que apresentou, foi meticulosamente analisado e rebatido pelo também médico veterinário espanhol José Enrique Zaldivar. Zaldivar foi uma das pessoas que enviou questões a Illera e que nunca recebeu resposta do autor do estranho “estudo”. Fê-lo por várias vezes e esperou muito tempo, mas apenas para ficar sem resposta. O tal estudo nunca foi inteiramente tornado público e continua, até hoje, sem ser publicado em qualquer revista científica. E, entretanto, José Enrique Zaldivar escreveu o extenso artigo “Porque é que o touro sofre” (em resposta ao artigo de Illera intitulado “Porque é que o touro não sofre”), no qual demonstra os erros cometidos por Illera para chegar à inválida conclusão de que os touros quase não sofrem durante a lide tauromáquica. Zaldivar enviou este artigo a Illera, mas novamente não recebeu resposta. Convém dizer que, no meio académico, mensagens educadas com perguntas cientificamente legítimas enviadas por colegas só ficam sem resposta quando quem recebe as perguntas não sabe ou não quer responder (ou então se for mesmo muito mal educado). Neste caso, parece tratar-se de ambos os cenários.

Quanto às conclusões de Illera e às objecções que Zaldivar levantou às mesmas, apresento-as sinteticamente de seguida. Illera afirmou que, ao contrário dos touros que foram transportados da ganadaria para a praça, que foram mantidos nos curros e que chegaram a entrar na praça mas não chegaram a ser picados nem toureados (que apresentaram, segundo Illera, sinais elevados de stress e de sofrimento), os touros que não só foram expostos a estas situações mas que foram também, além disso, picados pelos “picadores” na sorte de varas e de seguida toureados apresentaram, nas medições hormonais que lhes foram feitas, sinais muito menores de stress e de sofrimento do que os touros que não foram toureados. Ora, Zaldivar explica por que razão é que essa estranha conclusão foi possível e porque é que ela é inválida. É que Illera tratou os resultados das avaliações hormonais de touros com graves lesões neurológicas (causadas pelos “picadores” e, depois, pelas farpas) segundo padrões normais – só que, como explica Zaldivar, tal não pode legitimamente ser feito, visto que os touros não estão em condições normais para poderem ser avaliados hormonalmente, nomeadamente porque o tipo de lesões que são causadas aos touros em touradas fazem com que as medições hormonais deles depois de sofrerem essas lesões – estando eles com estruturas neurológicas gravemente destruídas – não reflictam o seu actual estado de saúde física e/ou mental, fazendo também com que certamente não reflictam o sofrimento que os animais estão a experienciar e a capacidade que têm e continuam a ter para experienciá-lo. Para melhor se compreender estas questões e quão hábil e racionalmente Zaldivar deitou por terra as conclusões do dito “estudo” de Illera, vale a pena ler o artigo de Zaldivar (se o quiser ler, por favor contacte campanhas@animal.org.pt).

Há ainda alguns defensores das touradas que optam por respostas menos comuns e ainda mais frágeis do que as acima descritas.

A primeira é a de que os ferros usados em touradas ferem tanto os touros e provocam-lhes tanto sofrimento quanto as lâminas de barbear ferem os homens quando se cortam ao fazer a barba. Claro que, neste caso, os defensores das touradas ignoram ou pretendem que se ignore um elemento muito importante: a proporção. Obviamente, as dimensões de uma lâmina de barbear em relação à superfície da face de um homem que esta poderá cortar são incomparáveis às dimensões dos ferros que são cravados no dorso dos animais – sendo que os ferros podem ter até 8cm de comprimento e têm arpões incorporados que podem ter até 4cm de comprimento, sendo cravados e ficando espetados no corpo dos animais, enquanto a lâmina de barbear provoca apenas um pequeno corte e não fica espetada na pele de um homem. Obviamente, os ferros usados em touradas geram lesões de longe mais profundas e graves nos touros (e consequentemente geram um sofrimento muito maior), do que uma lâmina de barbear mal usada pode gerar na face de um homem com um golpe meramente superficial. Esta afirmação é tão absurda, que cedo se tornou impopular mesmo entre os defensores das touradas embora ainda haja quem a use.

A segunda reporta-se à ideia de que o sofrimento faz parte da vida – dos animais e dos humanos. Neste contexto, é comum encontrar defensores das touradas a defender que o sofrimento é uma experiência comum nas suas vidas. Sofrem quando têm que fazer viagens longas, sofrem quando estão doentes, sofrem quando perdem alguém, etc., pelo que sofrer é algo de natural e não deve constituir razão para criticar algo, nomeadamente as touradas. Neste caso, os defensores das touradas fazem uma confusão demasiadamente conveniente entre sofrimento provocado e sofrimento não-provocado. Quando sofremos – ou, melhor, quando nos sentimos desconfortáveis – por fazermos viagens demasiadamente longas, esse é um desconforto que nós não procuramos mas que aceitamos como implicação da necessidade ou do interesse em fazer uma viagem longa. Mas aceitamo-lo apenas condicionadamente: tentamos preveni-lo e aliviá-lo o mais possível, nomeadamente fazendo paragens, dividindo a viagem por partes, utilizando um meio de transporte mais confortável, etc. É, além disso, um desconforto superficial e não uma forma de sofrimento profundo, como é aquele que é causado aos touros em touradas. Por outro lado, quando estamos doentes, o sofrimento que experienciamos é, mais uma vez, não-provocado. Nem queremos ou procuramos estar doentes, nem nos conformamos com isso. Tentamos prevenir as doenças, o sofrimento e mau-estar que nos causam, e, quando ficamos doentes, tentamos curar-nos da melhor e mais rápida maneira possível. Do mesmo modo, quando perdemos alguém que nos é querido, não só escolheríamos sempre não perder esse ente querido e fazer tudo o que pudéssemos para salvá-lo e tê-lo connosco, como também ficamos profundamente transtornados por essa perda – mas tentamos encontrar uma maneira de lidar com ela e com o sofrimento que nos causa. Procuramos o apoio de outras pessoas que nos são queridas, tentamos adoptar uma visão positiva e adaptar-nos a essa perda e, nos casos mais extremos, poderemos recorrer a ajuda de profissionais para lidar com uma eventual depressão que sintamos em resultado dessa perda. O que é certo é que, neste caso como em todos os outros, não procuramos o sofrimento e não o acolhemos passivamente, por muito natural que ele seja – tentamos sempre preveni-lo e, quando ele se abate sobre nós, tentamos aliviá-lo e fazê-lo desaparecer. Nas touradas, o caso é completamente diferente. É provocado sofrimento severo aos touros. Sofrimento que em circunstâncias normais não sofreriam, sofrimento que nunca procuraram, sofrimento que, na verdade, faria com que fugissem, se pudessem, sendo evidente que os touros, nas touradas, tentam por todas as maneiras evitar o que lhes causa o sofrimento e tentam defender-se, embora em vão. Não têm qualquer hipótese de prevenir esse sofrimento que não escolheram, não têm como evitá-lo nem têm como acabar com as causas desse sofrimento ou curar-se. Nem têm quem os ajude – só têm quem, depois de lhes causar tanto sofrimento e tão graves lesões, acabará por levá-los para um matadouro, onde serão mortos depois de tanta agonia.

Conclui-se, então, que, para os touros, sofrer em touradas é infelizmente uma realidade mas não é uma inevitabilidade. É algo que só acontece porque uns lucram e outros divertem-se a provocá-lo. E isso é tão condenável e objectivamente inaceitável, que deve levar à total abolição da tauromaquia.


publicado por Maluvfx às 04:10
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Sábado, 7 de Julho de 2012
Portugal apoia a tortura animal. É uma vergonha !
tourada
Isto é uma vergonha! Mesmo quem detesta as touradas, mesmo os que lutam com dificuldade para sustentar a famía têm que pagar salários a estes senhores da "arte da tortura". Quem mais teremos nós de sustentar? Se o estado português financia uns porque não financia outros? Serão as touradas um bem essencial?

Vamos lá compreender: corta-se em educação, corta-se em saúde, corta-se em solidariedade social, corta-se na segurança pública, mas gasta-se quase 10 milhões de euros em touradas no espaço de um ano. Não existe ajuda para os pobres e para os deficientes que perderam o direito a transportes e a consultas, mas existe para os ricos. Sei que subsidiar em prioridade o povo português no que mais necessita, dá menos lucros a esta nova geração de governantes, mas em contra partida, poderia libertar a consciência. A tal consciência patriótica, caso ainda exista...
Em tempo de crise, temos que assistir à falência de famílias, enquanto o estado mantém subsídios para torturar animais? Creio que existem prioridades... Temos que aguentar e sustentar tudo isto, e ainda somar-lhe os desfalques que certos governantes fazem ao país em seu proveito próprio. Não há carga fiscal que aguente tanta incompetência e injustiça na gestão dos nossos impostos.
>Os promotores tauromáquicos dizem que defendem a cultura. Eis a cultura que os move: a cultura do dinheiro público entregue a fundo perdido. Há pessoas que enriquecem em Portugal com dinheiro dos contribuintes que é desperdiçado em touradas.

Eis a lista vergonhosa:
Ortigão Costa
Lupi
Passanha
Palha
Ribeiro Telles
Câmara
Veiga Teixeira
Freixo
1.236.214 €
980.437 €
735.847 €
772.579 €
472.777 €
915.637 €
635.390 €
568.929 €


Cunhal Patrício
Brito Paes
Pinheiro Caldeira
Dias Coutinho
Cortes de Moura
Rego Botelho
Cardoso Charrua
172.798 €
441.838 €
125.467 €
389.712 €
313.676 €
420.673 €
80.759 €
Romão Moura
Brito Vinhas
Romão Tenório
Sousa Cabral
Varela Crujo
Assunção Coimbra
Murteira
248.378 €
53.686 €
283.173 €
318.257 €
188.957 €
330.789 €
137.019 €

Subsídios do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP) no valor de € 9.823.004 atribuídos em 2011 às empresas e membros das famílias da tauromaquia, segundo Informação publicada no Diário da República.

Em apenas 5 anos (2006-2010) as grandes dinastias da tauromaquia receberam cerca de 31.243.390 € em subsídios do IFAP.

“Portugal utiliza fundos Europeus para financiar a tauromaquia"
Dois deputados catalães, Raul Romeva (ICV) e Oriol Junqueras (ERC), pediram à Comissão Europeia para parar o financiamento às instalações taurinas em Portugal com fundos comunitários do desenvolvimento rural.

Os deputados acusam a Portugal de utilizar recursos para obras de desenvolvimento rural em instalações de tourada e preparam já uma série de perguntas a realizar na comissão:
A Comissão tem conhecimento deste financiamento de instalações para espectáculos tauromáquicos com fundos destinados ao desenvolvimento rural? Considera reprovável que instalações tauromáquicas sejam financiadas com fundos comunitários? A reabilitação desta praça de touros é conforme ao Tratado de Lisboa, nomeadamente às suas disposições relativas ao bem-estar animal? A Comissão tem conhecimento de outras utilizações de fundos europeus em obras e projectos relacionados com a tauromaquia?.”

Para os dois deputados o uso de dinheiro público para financiar a reforma de uma praça de touros “implica uma falta de respeito para com as regiões europeias com maior desigualdade económica e que necessitam de tais fundos para realizar obras de infra-estrutura e projectos necessários”

marrada de toiroSetubal: Tourada sim, os deficientes que esperem...

Assento Parlamentar (BE) por Leonardo Silva.
Touradas S.A. Foi anunciado que, por alturas da Feira de Santiago, haveria uma tourada. Esta foi feita com dinheiros públicos. 15.000 € ofertava a Câmara Municipal de Setúbal com o apoio incompreensível do Vereador dos Verdes André Martins para um retrocesso civilizacional.

O Executivo presidido por Maria das Dores Meira visa reabilitar a Praça Carlos Relvas em sistema de Parceria Público Privada, sendo que em 216.000 € investidos pelo privado (Empresa Aplaudir) para gerir o espaço durante 12 anos, 120 000 € vêm do erário público municipal, pago em prestações "suaves" que comprometem os próximos 6 anos, ou seja, este e o próximo executivo... que pensar quando se sabe que esta verba permitiria atenuar com alguns dos problemas por que passa, a Associação de Apoio aos Deficientes e Amigos de Setúbal? Esta ainda aguarda resposta para os mais simples auxílios. Uma cadeira de rodas eléctrica custa 2600€, parece-nos que a exigência de apoio para adquirir pelo menos cinco, feita à Presidente, para funcionarem em sistema de partilha. os valores implicados nesta espécie de PPP são pornográficos e socialmente criminosos. Não podem usar o dinheiro de todos setubalenses, para manchar o chão da cidade com bárbaras torturas sobre os animais, nem o podem usar sem critérios sabendo das grandes necessidades desta nossa gente. A Câmara não deve e não tem de pagar mais de metade do investimento privado.
Pelos Animais e pelas Pessoas, não são tempos para usar dinheiros públicos em touradas. Haja decência!

Em Setúbal o gosto do sangue paga-se caro. Na Praça Carlos Relvas a dignidade humana atingirá este ano um dos seus pontos mais baixos.

touradas, não Câmara Municipal de Santarém

Câmara Municipal de Santarém gastou 104.763 euros em bilhetes para oferecer para as três corridas de toiros que se realizaram em Junho na Monumental Celestino Graça. A aquisição foi feita à empresa que explora o recinto, a Aplaudir, e os ingressos distribuídos à população através da câmara e das juntas de freguesia.

A aposta do presidente da câmara, Francisco Moita Flores (PSD), em dar vida nova à velha praça de toiros tem sido feita também com a ajuda dos contribuintes, o que motiva críticas do candidato da CDU à presidência da câmara. “Assim é fácil encher praças de toiros. Os 65 mil habitantes do concelho não têm que pagar touradas a 4 ou 5 mil”, diz José Marcelino, referindo que desconhece os critérios para a atribuição dos bilhetes.
São comprados dois mil bilhetes, a preços entre os cinco e os 10 euros, sendo dados mil para serem distribuídos pelas juntas de freguesia. Os restantes são para o município oferecer. Mas os contratos por ajuste directo celebrados entre a autarquia e a empresa revelam números superiores: nas corridas de 6, 10 e 14 de Junho a câmara comprou bilhetes no valor de 33.334 euros, 42.857 euros e 28.572 euros, respectivamente.

Um pouco da história das touradas
 Na cultura da Península Ibérica, o Circo de Termes parece ter sido um local sagrado onde os celtiberos praticavam o sacrifício ritual dos touros. A estela de Clunia é mais antiga representação do confronto de um guerreiro com um touro. As representações taurinas de variadas fontes arqueológicas encontradas na Península Ibérica tais como os vasos de Líria, as esculturas dos Berrões, a bicha de Balazote ou o touro de Mourão estão quase sempre relacionadas com as noções de força, bravura, poder, fecundidade e vida que simbolizam o sentido ritual e sagrado que o touro ibérico teve na Península. Júlio César(40 a.C.) durante a exibição do venatio introduziu uma espécie de "tourada", onde cavaleiros da Tessália perseguiam diversos touros dentro de uma arena, até os touros ficarem cansados o suficiente para serem seguros pelos cornos e depois executados. O uso de uma capa, num confronto de capa e espada com um animal, numa arena, está registado pela primeira vez na época do imperador Cláudio. Ato de crueldade sem justificação Grupos de defesa dos direitos animais criticam a prática da tourada, pois é um ato de crueldade sem justificação, que não se insere dentro das tradições humanistas. Em Portugal, quatro autarquias posicionaram-se contra a realização de touradas nos seus concelhos, Viana do Castelo, Braga, Cascais e Sintra. Em Espanha, o país onde as touradas são mais tradicionais, existem zonas nas quais estão proibidas. Em primeiro lugar foram as Ilhas Canárias, com a aprovação em 1991 da Lei de Proteção de Animais e, duas décadas depois, em Julho do 2010, o parlamento de Catalunha aprovou uma Iniciativa Legislativa Popular que proibia estas práticas com o extremo rigor dos Bous al Carrer.

O Brasil proibiu as touradas em 1934
Porto Alegre teve tanto corridas de touros como touradas em praça de touros situada no Campo da Redenção, que hoje abriga parque de mesmo nome. Com cavaleiros, bandarilheiros, forcados e pega, assim como pantomimas tauromáquicas, eram consideradas eventos sociais, recreativos e artísticos, atraindo humildes e abonados. Havia praças de touros em São Paulo, Santos, Cuiabá, Curitiba, Salvador e no Rio de Janeiro, então capital nacional. Nela em 1922, dentre as festividades do centenário da independência, realizaram-se touradas com registo cinematográfico. Foram proibidas em 1934 por Getúlio Vargas, juntamente com as lutas de galos.

O MOVIMENTO DE SÉRGIO
Movimento pela abolição dos espectáculos das corridas de touros e pela dignificação da condição humana e animal. As corridas de touros foram uma actividade lúdica comum a vários países europeus durante a idade média. A maioria desses países aboliu este tipo de espectáculos sangrentos por volta do século XVI por se tratarem de eventos cruéis e impróprios de nações civilizadas. Actualmente as touradas são proibidas em diversas nações europeias como a Dinamarca, Alemanha, Itália ou Inglaterra. Infelizmente estas práticas mantiveram-se em Espanha sendo daí exportadas para Portugal onde foram alvo de várias restrições e até proibidas em 1836. Por constituírem uma importante fonte de receita para a Casa Pia de Lisboa e para as Misericórdias, as touradas foram novamente autorizadas apenas para fins benéficos, mas acabaram por se transformar num evento comercial lucrativo para um pequeno grupo de empresários tauromáquicos, nunca perdendo a ligação às suas verdadeiras origens, evidenciada nos trajes, nas lides, no vocabulário e até na música que se ouve nas praças. As corridas de touros constituem nos dias de hoje um espectáculo anacrónico, violento e um mau exemplo, em particular para as crianças e jovens, em relação à compaixão e respeito que todos devemos evidenciar pelos animais. Não é aceitável que a nossa sociedade em 2012 continue a aplaudir o derramamento de sangue e o desprezo pela vida evidenciado pelos artistas nas arenas, assim como não é admissível que no panorama actual, vários milhões de euros das nossas finanças públicas, sejam canalizados para a criação de animais para entretenimento, construção de praças de touros, aquisição de bilhetes para touradas, subsídios, etc. O meu movimento pretende contribuir para o progresso civilizacional da nossa sociedade, para a sua pacificação e para a valorização de outras práticas festivas, lúdicas e pacíficas que acontecem no nosso país e que merecem ser valorizadas. Estou certo que as minhas ideias são, felizmente, partilhadas pela grande maioria dos cidadãos portugueses. Pelos homens, mulheres, crianças e em particular pelos animais peço que apoiem este movimento para que a nossa voz chegue ao Sr. Primeiro Ministro.

Fonte


publicado por Maluvfx às 05:30
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Terça-feira, 3 de Julho de 2012
Porque não defendemos todos os animais?
Não defendemos animais que dizem isto:

“Temos a Bandeira mais feia do Mundo” – Miguel Sousa Tavares

Em entrevista ao Diário de Notícias o jornalista e escritor, Miguel Sousa Tavares, confessou que não gosta das actuais cores da bandeira portuguesa e que esta poderia ser mais azul e branca como antigamente. «Temos a bandeira mais feia do mundo», salientou.

Para além da bandeira o escritor também não gosta do hino e quanto à selecção nacional na sua opinião «o principal já mudou». Um confesso adepto das transgressões gosta de conduzir e comer uma salada de caracóis acompanhada por uma imperial.

Tem pesadelos com o facto de voltar à faculdade para ter de fazer uma cadeira e acreditaria no paraíso se lhe garantissem que lá havia «anjinhas massagistas». Concorda com Chico Buarque quando diz que «devagar é que não se vai longe».

Fonte : Portugal Diário


publicado por Maluvfx às 11:04
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Um discurso emocionante pelos animais

Philip Wollen, que já foi vice-presidente do Citibank, é um filantropista australiano amigo dos animais. Durante um recente debate no St James Ethics Centre and the Wheeler Centre em Melbourne, ele fez um apelo emocionante pelos animais, pedindo que as pessoas os deixem fora de seus pratos.
“Os animais tem que sair do cardápio. Porque esta noite eles estão gritando aterrorizados em matadouros e jaulas. Eu ouvi os gritos de desespero do meu pai quando o câncer o consumia e eu me dei conta que eu tinha ouvido aqueles gritos antes. No matadouro, os olhos arrancados com facas, os tendões cortados, nos navios para o Oriente Médio e uma baleia morrendo enquanto um harpão japonês explode em seu cérebro quando ela grita por seu filho. Esses gritos eram os gritos do meu pai,” ele disse.
Wollen enfatizou a questão ambiental ligada ao consumo de animais e como a carne contribui para a aquecimento global. Mas sua retórica é voltada principalmente a crueldade. Ele disse que pior que ditadores na Coréia do Norte e Irã é o que passa pelo nosso garfo e faca.
“A paz não é apenas a ausência de guerras. Ela é a presença de justiça.”
Assista o vídeo do discurso completo em inglês com legendas em português.

Debate completo sem legendas

Please join us at http://facebook.com/KindnessTrust
| Do you eat meat? Did you know you are in the minority? Out of an audience of hundreds, 73.6% agreed meat should be off the menu - find out why, then ask yourself if you are making the right choice.

Intelligence Squared's 2012 series of debates kicks off with a look at the ethics of eating meat. Six speakers are divided into two teams for lively and insightful arguments for and against the proposition, 'Animals Should Be Off the Menu'.

Speaking for the proposition are Peter Singer, Philip Wollen and Veronica Ridge; against it, Adrian Richardson, Fiona Chambers and Bruce McGregor. Their cases are followed by questions from the floor and finally, the audience vote.


publicado por Maluvfx às 09:29
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Gado das touradas custa ao Estado mais de um milhão
Criação de gado usado em touradas custa ao Estado mais de um milhão de euros - Pág. 4 e 5
O Bloco de Esquerda apresenta amanhã na Assembleia da República uma proposta para que as touradas deixem de passar na RTP e sejam proibidos auxílios com dinheiros públicos. Os apoios do Governo a casas que criam gado para touradas estão, porém, imunes a esta legislação. O executivo justifica os subsídios atribuídos para a criação deste tipo de touros (1,35 milhões de euros) com a política comunitária de proteção a uma raça bovina autóctone.


 Gado das touradas custa ao Estado mais de um milhão




publicado por Maluvfx às 05:43
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Domingo, 1 de Julho de 2012
A tourada, razão da existência do touro bravo?
Hugo Evangelista – Biólogo
Abril 2009

«Um dos argumentos frequentemente mencionados em debates sobre touradas é o da importância em manter a espécie do touro bravo. Os proprietários das ganadarias mantêm os touros nos seus terrenos, não porque tenham uma grande consciência ecológica e ambiental, mas porque daí retiram dinheiro. Muito dinheiro. No dia em que os touros deixarem de ser vendidos a 2000 euros cada (sem contar com chorudos subsídios europeus), cerca de 2600 animais por ano (DN, 2007), os proprietários das ganadarias rapidamente se esquecerão de qualquer importância ecológica ou da biodiversidade do touro bravo. É esta a principal, senão a única, verdadeira razão para a continuação das touradas no nosso país - um forte interesse económico de um pequeno grupo de pessoas. É claro que, para desculpar o indesculpável, atiram para os olhos o argumento de se querer proteger uma espécie. Mas nem o touro bravo é uma espécie, porque é sim uma raça ou subespécie, nem a extinção desta raça é irremediável e obrigatória quando as touradas acabarem. A extinção desta raça não é irremediável nem obrigatória porque nada impede a criação parques naturais, santuários ou outras soluções viáveis para a conservação destes animais. O que não pode nunca acontecer é justificarmos a crueldade para com uma animal para o poder "conservar". Cabe na cabeça de alguém que a conservação do panda passe por lhe espetar bandarilhas no dorso? Que o repovoamento do lince ibérico na Península Ibérica passe por lhe cortar as orelhas e rabo? A conservação de espécies / raças, não é argumento para continuar as touradas. É um papel que tem de ser assumido pelos portugueses e pelo Estado e não por empresas que da exploração desses animais retiram avultados lucros. Existe outro argumento frequente, que é o da conservação dos ecossistemas, mas este é ainda mais frágil. É que estamos a falar de um animal totalmente domesticado, que só existe por selecção artificial de características de interesse, que no caso do touro bravo é essencialmente a bravura. Ou seja, o touro bravo não existe no campo por estar em total equilíbrio e conjugação com a Natureza. Está lá porque os ganadeiros assim o fizeram e ali o colocaram. Isto significa que um touro bravo é, no mínimo, um elemento supérfluo na manutenção dos montados portugueses. Voltamos então ao único argumento de peso para a manutenção das touradas. Os interesses económicos. Interesses esses que vivem de um espectáculo que promove a ideia de que existe justiça e igualdade em colocar um animal num local estranho e com regras definidas pelos humanos; que coloca animais numa luta que estes não desejam mas são forçados a entrar; que vive da diabolização da imagem de um herbívoro territorial e faz disso um espectáculo de entretenimento. 
É vital rejeitarmos esta visão subversiva da realidade. É preciso dizer que a tourada não é uma fatalidade e que podemos acabar com uma das formas mais indignas e desumanas de tratamento dos animais da actualidade. O caso muito recente de Viana do Castelo dá-nos força e entusiasmo. É vital agora a maioria silenciosa que se opõe às touradas mostrar o seu descontentamento, de forma pró-activa e com um único compromisso: o respeito pelos animais e pela Natureza.»


publicado por Maluvfx às 09:44
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A tourada
A tourada é uma tradição presente nos países ibéricos e França, e em algumas das áreas por eles colonizadas (México), que consiste da lida de touros bravos através de uma série de artes, a pé ou montado a cavalo. Presente em diferentes vestígios desde a antiguidade clássica, sendo conhecido o afresco da tourada no palácio de Cnossos em Creta.

Em Portugal as touradas de morte foram proibidas no tempo do Marquês de Pombal ao mesmo tempo que a pena capital foi definida para os criminosos, por motivos do falecimento de figuras de relevo nestes espetáculos (o que ainda acontece em Espanha com alguma frequência). Em 2002 a lei foi alterada para permitir os touros de morte em locais justificados pela tradição, como na vila de Barrancos.

Antes de entar na arena, os touros são mantidos nos curros, para onde são conduzidos com aguilhões e à paulada, e onde os seus chifres são serrados a sangue frio para serem embolados.

Factos:

Ao entrar na arena, os touros vão já fortemente enfraquecidos e feridos (devido aos chifres serrados a sangue frio antes da tourada), além de apavorados. O pânico do touro é tão grande, que fugiria deste cenário aterrorizador, se tivesse essa possibilidade.

É possível observar a expressão de medo e de confusão nos touros sempre que estes entram na arena, e que se agrava quando a tortura da tourada se acentua, à medida que as bandarilhas e os restantes ferros (que podem ter comprimentos variáveis entre os 8cm e os 30 cm, além de terem afiados arpões na ponta, para se prenderem à carne e aos músculos dos animais) rasgam os seus tecidos, provocando-lhes um sofrimento atroz, além de febres imediatas, acrescidas de um enfraquecimento acentuado pela perda de litros de sangue.

A Tourada em detalhe:

Todo o decorrer da chamada corrida de touros à portuguesa consiste na “lide” de seis touros, habitualmente. Cada um dos touros é toureado por um cavaleiro tauromáquico, que lhe crava entre quatro a oito ferros compridos com grandes e afiados arpões na ponta. Os touros podem alternativamente ser “lidados” por um toureiro a pé (embora isto seja menos comum nas touradas portuguesas), que crava repetidamente as aguçadas bandarilhas no dorso do touro. Seguidamente, é comum entrar em cena o bandarilheiro, que vem cansar ainda mais o touro já febril, brutalmente enfraquecido, confuso e assustado.

Enquanto o touro é brutalizado na tourada, enquanto o cavalo é também vítima desta brutalização, e enquanto o sangue de ambos os animais escorre e mancha a arena em que este acto deplorável acontece, não são apenas toureiros (cavaleiros tauromáquicos e bandarilheiros) que participam nesta festa de sacrifício de animais – existe um público presente que, por minoritário que seja na sociedade portuguesa, aprecia e aplaude a violência a que assiste, regozijando-se com o sofrimento bárbaro que ali é infligido aos animais.


A necessidade de um referendo.
“Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”
Artigo 1º da Constituição da República Portuguesa

Embora possa não ser evidente ou flagrante o descontentamento e a tristeza sentidos pelo povo português perante situações degradantes que persistem e teimam em coexistir connosco, a verdade é que tal falácia poderá resultar precisamente do facto de já constituírem um costume, carecendo de uma falta de apuramento a nível nacional, uma consulta individual de cada cidadão, que viesse destronar uma realidade que, colectivamente, poderá não corresponder às pretensões e sonhos de todos nós.
Não deverá o recurso a um referendo nacional fundamentar-se quando, envolvida uma nação em circunstâncias particulares que só exprimem o desmazelo por valores fundamentais e a tendência para o culto da violência e da apatia perante situações de evidente violação de um direito inalienável comum a espécies humanas e não-humanas, como o do direito à vida, se torna manifestamente necessário averiguar qual o sentido que queremos dar à nossa sociedade, procurando preservar, estimar e redescobrir alguns fundamentos axiológicos que só podem enriquecer a nossa existência?
Será, porventura, mais enriquecedor valorativamente, proteger os interesses de um minoria que justifica os seus actos pela sua reiterada consumação, e resistir cegamente a “imposições” externas que, embora representações aparentemente minoritárias como uma esporádica manifestação e por vezes tão simplistas como a passagem de um pensamento para uma folha de papel, expressam uma esperança que continuamente renasce das cinzas, ou, por outro lado, ceder e, perante o tão aclamado benefício da dúvida, dar seguimento a um escrutínio popular que dará voz aqueles que, certamente não menos influentes, também eles devem decidir sobre situações problemáticas e assustadoramente actuais?

Questões estas que, seguramente, não suscitam qualquer dificuldade de resposta por parte de todos nós quando o objecto de tais situações infamantes é o nosso semelhante - o Homem – infelizmente assim já não sucede quando se trata de um animal não-humano. Tal facto deve-se, com certeza, a inúmeras e insondáveis razões, mas a verdade é que não nos devemos abstrair de erros actualmente cometidos, reveladores de um “especismo” anacrónico como este, para perpetuar sucessivos ataques a valores fundamentais que, em virtude de uma consciência mais aberta e plural, se estendem também, e necessariamente, aos nossos companheiros não-humanos.

O espectáculo tauromáquico é um atentado ao mais elementar dos deveres do Homem para com o animal. Muitos há que o sabem, ainda assim, numa cumplicidade mórbida, assistem. Outros há, indiferentes numa sociedade que não solicita a sua participação convicta que, consciente ou inconscientemente, consentem.
Uma imagem vale mil palavras, dizem, horas de toureio certamente valerão um precedente pesadamente negativo no historial de empatia, compreensão e afinidade entre o Homem e o animal. Mesmo quem, vivendo indiferente ao sofrimento gesticulado, à tortura muda, ao cansaço visível e às horas de solidão por que passam as verdadeiras vítimas das touradas nos momentos que antecedem tal espectáculo, permanecendo robustos e incansáveis até ao momento da verdade, de certo, no mínimo, consentirá o aclamado benefício da dúvida e porá em causa aquilo que para ele se ostentará como mais precioso – momentos de pseudo-cultura e ostentação humanas ou momentos de liberdade e paz para os touros e cavalos?

“Que prazer pode um homem civilizado retirar de um espectáculo de um fraco ser humano a ser dilacerado por um animal poderoso, ou de um esplêndido animal a ser trespassado por uma lança?”
Marco Túlio Cícero

A cultura é, deveras, um ponto sensível. A heterogeneidade da opinião popular, mais que um critério assertório da nossa soberania e fonte de afirmação social, deve fomentar o respeito por todas as diversas formas de representação cultural. Sem dúvida que devemos respeitar as decisões do próximo mas, certamente concordarão, com a excepção intuitiva de que não extravasem para ir entrar em conflito com direitos que nós próprios tenhamos como garantidos. Mas será esta a única restrição? Decerto que não, entre muitas outras, apresenta-se como evidente para muitos, o limite que não interfira com a autonomia, a independência, e o livre-arbítrio – seja por parte daquele que partilha connosco semelhanças cognitivas, físicas e psicológicas, mas também, e sobretudo, por parte daqueles que partilham connosco a capacidade de sentir, de sofrer, de exprimir ansiedade, desejo e desconforto, inteligência e auto-domínio, a que são comuns o Homem e os animais não-humanos. Dito isto, é moralmente exigível que alguém respeite outrem se este retribuir o respeito não só para o primeiro mas para com os outros.
A garantia com que todos nós, ou assim deveria ser, sentimos todos os dias as consequências, boas ou más, em virtude de acções deliberadas ou instintivas mas sempre fruto do nosso agir incondicional, deveria ser comum a todos os animais. Sabemos, no entanto, que tal é impensável nos dias que correm, tal é a dependência com que nos interligámos, falo, nomeadamente, dos hábitos alimentares extravagantes e, a meu ver e na perspectiva de muitas outras pessoas que hoje decidem adoptar uma alimentação vegetariana, moralmente disfuncionais da sociedade Ocidental. Ainda assim, nos momentos em que nos é possível devolver autonomia, falhamos. A expressão “do mal, o menos” tem continuamente falhado, e assim continuará se não nos mentalizarmos do mal que subjaz à posse de domínio irrestrito sobre o próximo e a tão pesada responsabilidade que acarreta.

Se em momentos de hierarquizar, axiologicamente, entre a nossa acepção de entretenimento e a autonomia existencial dos animais, nem sequer hesitamos, que reflexo poderá ter nas nossas próprias relações, na forma com que nos visualizamos mutuamente e nos critérios com os quais atribuímos valores, direitos e deveres aos da nossa espécie?

A Lei n.º 92/95 de 12 de Setembro, que apresenta a seguinte epígrafe “Protecção aos animais”, e que constitui o documento legislativo actualmente mais ambicioso no domínio da protecção animal, dispõe da seguinte forma:
“Artigo 1.º
1 – São proibidas todas as violências injustificadas contra animais, considerando-se como tais os actos consistentes em, sem necessidade, se infligir a morte, o sofrimento cruel e prolongado ou graves lesões a um animal.
2 – Os animais doentes, feridos ou em perigo devem, na medida do possível, ser socorridos.
3 – São também proibidos os actos consistentes em:
(…) e) Utilizar animais para fins didácticos, de treino, filmagens, exibições, publicidade ou actividades semelhantes, na medida em que daí resultem para eles dor ou sofrimentos consideráveis, salvo experiência científica de comprovada necessidade;
f) Utilizar animais em treinos particularmente difíceis ou em experiências ou divertimentos consistentes em confrontar mortalmente animais uns contra os outros, salvo na prática da caça.”

No artigo 3.º, sob a epígrafe “Outras autorizações”, o ponto 2 dispõe: “A touradas são autorizadas nos termos regulamentados”.
Confrontando este último artigo (artigo 3.º 2.) com todas as alíneas do artigo 1.º, referidas acima, rapidamente se revelará como evidente a existência de uma excepção no domínio dos maus-tratos aos animais – os espectáculos tauromáquicos. Quaisquer que tenham sido os motivos por detrás da elaboração do disposto no artigo 1.º, certo são que visam, acima de tudo, devolver princípios básicos aos animais e atribuir-lhes direitos que correspondem a deveres da nossa parte. Assim sendo, é incongruente atribuir uma excepção em domínio de valores fundamentais, quando esta dispõe precisamente em sentido contrário, atentando contra os mesmos. Perdem toda a relevância objectiva e material as disposições que visam proteger e consagrar direitos inalienáveis, quando se consentem excepções que admitem comportamentos opostos.

Reconheça-se que o espectáculo tauromáquico já esteve proibido, por Decreto de 12 de Setembro de 1836, no nosso ordenamento jurídico, muito embora, pouquíssimo tempo depois, haja sido revogado pela Lei de 20 de Junho de 1837. Já com a Lei n.º 19/2002, de 31 de Julho, é concedida uma “autorização excepcional” que permite, quando na sequência de um costume de incumprimento à anterior lei, os touros de morte. Este seguimento cronológico de legislação necessariamente despertará um sentido crítico e uma atenção especial por parte dos Legisladores e dos cidadãos comuns.

Não se impõe ao poder político que altere situações que apenas uns opinem que assim devia ser, mas sim aquelas em que uma maioria se pronuncia, tendo oportunidade para tal.

As leis devem exprimir o consenso e o assentimento da maioria dos cidadãos de um Estado, se assim não for, uma lei de nada valerá, pelo menos materialmente falando. Ter-se-á aplicado este princípio regulador na Lei de 20 de Junho de 1837 acima referida? Certamente que não. Será este o princípio regulador do processo legislativo num Estado de direito democrático e social? Esperemos que sim. Será este o momento, fazendo jus a tudo aquilo que aprendemos ao longo de tanto tempo, oportuno a uma rectificação, a um confronto entre capacidade decisória e mera exaltação de valores? Sabemos que sim. A oportunidade cria o momento. Chegada a altura de decidir, o resultado falará por si e ganhará toda a relevância.

Depois de algum tempo a ler todos os depoimentos, factos, reportagens, dissertações, entrevistas, só posso concluir que toda a tinta que correu, todo o tempo que se passou a falar do assunto não pode nem deve ter sido em vão, toda a polémica sobejamente conhecida em torno do espectáculo tauromáquico só existe pelo facto de sabermos que existem vítimas de sangue durante o processo, que toda e qualquer réstea de compaixão é esmagada pelo som ensurdecedor de pessoas a aplaudir o mal consumado no final das touradas. Peço que ouçam este pedido que é partilhado por milhares de pessoas já descrentes numa solução quando nem o poder político sequer se roga a mencionar o assunto. Peço que não ignorem este apelo sob pena de também eu me tornar um descrente. Pouco a pouco, a esperança de testemunhar a vitória dos verdadeiros interesses sobre os interesses económicos que pairam sobre este negócio, vai-se perdendo...

por André Barros


publicado por Maluvfx às 08:14
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