Ética é o conjunto de valores, ou padrões, a partir dos quais uma pessoa entende o que seja certo ou errado e toma decisões. A ética é importante por que respeita os outros e a dignidade humana.
Sábado, 5 de Junho de 2010
O verde segundo Lobato
Escritos do criador de Emília incluem defesa de florestas.

Os apontamentos críticos de um dos maiores escritores brasileiros não podem passar despercebidos neste Dia Mundial do Meio Ambiente. Mais do que um grande autor de histórias infantis, Lobato, atento às principais questões de seu tempo, foi um articulista ousado e perspicaz, engajando-se em diversas campanhas.
Militou pelo petróleo – o que lhe rendeu três meses na prisão, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas –, criticou o latifúndio e defendeu o ambiente em seus escritos. Na época, Lobato não tinha como prever a poluição que o petróleo causaria. Ambas as campanhas, pelo ouro negro, como pela preservação do verde, eram fruto de suas ideias nacionalistas.

Utilizando uma retórica ácida, permeada de sarcasmo e ironia, já em Urupês criticou as queimadas como método de preparo da terra para o plantio. No conto Velha Praga, Lobato se mostrava indignado diante da preocupação da elite letrada brasileira com o custo dos soldados na I Guerra Mundial na Europa, enquanto as queimadas causavam enormes prejuízos ainda não mensurados: destruíam as “velhas camadas de húmus”, “os sais preciosos”, que seriam levados pelas enxurradas, as aves e animais silvestres, que perderiam seu habitat, e a falta de pasto para o gado. O responsável por tal situação seria o caboclo, “o sacerdote da Grande Lei do Menor Esforço”. Lobato se refere ao caboclo como um parasita (tal como o fungo urupê, conhecido também como orelha-de-pau), um “piolho da terra”, que só se aproveitava da natureza, colhendo seus frutos, realizando agricultura por meio da coivara e, quando a terra se exauria, abandonava o local, procurando outro sítio para recomeçar, com os mesmos métodos, a luta pela vida. Entretanto, mais tarde, em sua obra, Lobato fez as pazes com o caboclo, reconhecendo que ele não era o culpado da ignorância e miséria, que levavam a processos destrutivos do ambiente, e sim a estrutura fundiária arcaica em que estava inserido.

Em Bucólica, outro conto de Urupês, Lobato critica a poluição das cidades, em que as pessoas respiravam um “indecoroso gás feito de pó”, ignorando os benefícios do ar puro das matas. No início do século, com a urbanização crescente, o surgimento do automóvel e o princípio da industrialização, as questões ambientais já eram tema debatido no centro do país. No entanto, o autor não era contrário ao progresso, muito pelo contrário, essa foi a principal causa pela qual militou, principalmente por meio de sua literatura infantil, pois considerava que somente as crianças e jovens, futuros adultos, poderiam tirar o país do atraso. Seus livros para esse público eram, acima de tudo, educativos, porém de forma lúdica, através de uma narrativa que dava direito de fala à criança.

Talvez seja em A Onda Verde que Lobato melhor explore os problemas ambientais da época. Como um nacionalista ferrenho, não pode se eximir de denunciar a destruição das “florestas virgens”, digeridas pela “árvore que dá ouro”: o café. Lobato aponta os bandeirantes (antigos e modernos) como culpados, “almas fechadas ao contemplativismo”, pela derrubada de jequitibás e perobeiras milenares. A ambição humana “preferia à beleza da desordem natural a beleza alinhada da árvore que dá ouro”. Outra denúncia importante do livro é o “grilo”, que, segundo Lobato, é o “precursor da onda verde”. Tirando o direito do nada, o grileiro é o sinal do fim de um tempo. Com sua chegada, acabam costumes dos antigos moradores da região, acabam a floresta, e a fauna, em troca dos extensos cafezais.

Em Homo Sapiens, um dos ensaios de A Onda Verde, num estilo panfletário e irônico, Lobato condena o homem pela pesca com armadilhas, as arapucas, mundéus, ratoeiras, o aprisionamento de pássaros em gaiolas, as carroças e arreios com que os cavalos eram presos, a caça das baleias com arpão e aos outros animais a tiros, os incêndios dos campos e matas, a drenagem dos pântanos, enfim, por todo o mal causado aos animais. O homem, movido pela ganância, torna-se “lobo de si próprio”, numa referência hobbesiana, pois suas ações contra a natureza acabam vitimando a si mesmo. A solução de Lobato é conclamar uma revolução dos bichos (muito antes de George Orwell, mas em outro sentido, é claro): “Animais todos da Terra, basta de submissão! Uni-vos!” Um governo dos animais seria “infinitamente mais gentil que a dura realeza humana”, inclusive porque daria maior atenção às crianças, a quem Lobato chamava de “pequeninas vítimas”. Por perceber o descaso com as crianças em sua época, o escritor dedicou-se a elaborar estórias em que elas têm direito de manifestar suas emoções, sentimentos, e dar vazão a toda fantasia que habita o imaginário infantil.

Também na literatura dedicada a elas, Lobato inseriu elementos de sua preocupação ambiental. Em uma passagem de A Chave do Tamanho reaparece a metáfora do governo dos bichos, aliado a uma reflexão sobre a própria humanidade. Na voz de Emília, Lobato compara a Terra a uma pulguinha na imensidão do universo; o homem, nesta pulguinha “é uma poeirinha malvada”. Se a humanidade acabasse, os animais ficariam muito contentes, porque o “homo sapiens era o que mais atrapalhava a vida natural dos bichos”, ideia transmitida através do Visconde de Sabugosa.

Em Memórias da Emília, livro em que a boneca resolve escrever “as histórias de sua vida”, há uma passagem interessante, na qual explica para o anjinho de asa quebrada (personagem de Viagem ao Céu) “as coisas da terra”. Emília esclarece que árvore é “uma pessoa que não fala; que vive sempre de pé no mesmo ponto”, e que só sai do lugar quando surge o machado, “o mudador das árvores”, que muda até o nome delas, pois, quando ele passa perto, as árvores viram lenha; é um “diabo malvadíssimo”. Através de Emília, Lobato critica também o uso de animais como cobaias em experimentos científicos. Ela considera isso um “desaforo”, porque o cão é o animal “mais amigo do homem”, o símbolo da fidelidade.

A partir de seu olhar crítico, guiado pelo nacionalismo, Lobato tocou nos problemas ambientais mais importantes da época em que viveu. Já havia poluição e destruição da natureza, nos anos 1920; ela se intensificou ao longo do século pelo desenvolvimento sem controle da indústria, pela falta de planejamento urbano e pelos estímulos ao consumo desenfreado, até chegar aos níveis que somos obrigados a suportar hoje. O grande mérito de seus escritos foi instigar seus contemporâneos à reflexão sobre o que estava acontecendo. Eles podem inspirar-nos na busca de soluções para os desafios de hoje, muito maiores, é claro, e que passam por uma séria mudança de conduta dos consumidores, mas também por uma revisão dos processos políticos e econômicos em âmbito global.

Fonte


publicado por Maluvfx às 12:36
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
13
14
16
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


posts recentes

Benefícios da Vitamina C

“Vermelho e Negro”

Cavalos e Pessoas II

Cavalos e pessoas I

POR QUE AS TOURADAS SÃO F...

Ponto de Vista VITAL: “A ...

O homem é superior aos an...

"A transmissão das tourad...

Touradas

Por isso é muito difícil ...

arquivos

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Setembro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Setembro 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Maio 2006

Dezembro 2005

Outubro 2003

Julho 2002

tags

todas as tags

favoritos

ANTI-TOURADAS

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds