Ética é o conjunto de valores, ou padrões, a partir dos quais uma pessoa entende o que seja certo ou errado e toma decisões. A ética é importante por que respeita os outros e a dignidade humana.

Domingo, 16 de Janeiro de 2011
O touro vai morrer. Dele se espera...
"O touro entra na praça. Entra sempre, creio. Este veio em alegre correria, como se, vendo aberta uma porta para a luz, para o sol, acreditasse que o devolviam à liberdade. Animal tonto, ingénuo, ignorante também, inocência irremediável, não sabe que não sairá vivo deste anel infernal que aplaudirá, gritará, assobiará durante duas horas, sem descanso.

O touro atravessa a correr a praça, olha os “tendidos” sem perceber o que acontece ali, volta para trás, interroga os ares, enfim arranca na direcção de um vulto que lhe acena com um capote, em dois segundos acha-se do outro lado, era uma ilusão, julgava investir contra algo sólido que merecia a sua fça, e não era mais do que uma nuvem. Em verdade, que mundo vê o touro?" (…)

"O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem irá morrer. Terei medo pelo toureiro quando ele se expuser sem defesa diante das armas da besta. Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um certo momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte."

(José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Volume II)


publicado por Maluvfx às 09:05
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O touro vai morrer. Dele se espera...
"O touro entra na praça. Entra sempre, creio. Este veio em alegre correria, como se, vendo aberta uma porta para a luz, para o sol, acreditasse que o devolviam à liberdade. Animal tonto, ingénuo, ignorante também, inocência irremediável, não sabe que não sairá vivo deste anel infernal que aplaudirá, gritará, assobiará durante duas horas, sem descanso.

O touro atravessa a correr a praça, olha os “tendidos” sem perceber o que acontece ali, volta para trás, interroga os ares, enfim arranca na direcção de um vulto que lhe acena com um capote, em dois segundos acha-se do outro lado, era uma ilusão, julgava investir contra algo sólido que merecia a sua fça, e não era mais do que uma nuvem. Em verdade, que mundo vê o touro?" (…)

"O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem irá morrer. Terei medo pelo toureiro quando ele se expuser sem defesa diante das armas da besta. Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um certo momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte."

(José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Volume II)


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Segunda-feira, 9 de Agosto de 2010
Uma espécie de "Big Brother" da vida de José Saramago
"Não queria estar na pele da Pilar quando eu desaparecer, mas de toda a maneira vamos ficar perto um do outro, as minhas cinzas vão ficar debaixo da pedra do jardim", ouve-se José Saramago dizer no vídeo que o realizador português Miguel Gonçalves Mendes preparou para apresentar na 8ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde o escritor foi ontem à noite homenageado. "Medo? Não. A morte para mim é a diferença entre estar e já não estar." José Saramago, que morreu no dia 18 de Junho, vira-se para a câmara e diz: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio" e apaga uma luz.

Os 40 minutos exibidos na Flip, com cenas que estão incluídas no documentário "José & Pilar" e outras que não estarão, fazem crer que Miguel Gonçalves Mendes quis fazer "um filme sobre a intimidade de duas pessoas extraordinárias", como notou o jornalista e escritor brasileiro Arthur Dapieve, que conduziu a conversa que se seguiu com o realizador que durante três anos filmou a vida do Prémio Nobel.

A Tenda dos Autores, um dos locais onde se realizam as sessões com os escritores e convidados da Flip, estava cheia. "Pilar, vou para casa", diz Saramago. E vai. Em seguida vê-se o escritor sentado à sua secretária na casa de Lanzarote, em Espanha, depois de ter colocado um disco de música clássica no leitor de CD. Olha para o computador, encosta-se para trás na cadeira como se estivesse a pensar, como se fosse difícil o processo de escrita. O espectador ainda não viu o ecrã. Ele pega no rato, clica: "Este para aqui e este para ali". De repente, o público que assiste ao desata às gargalhadas. Saramago não está a escrever um novo livro, José está a jogar paciências no computador. "Está ganho. As cartas fazem uma espécie de dança" e são boas para que afugentar o Alzheimer, diz. Pouco depois, Pilar aparece, tem que ligar alguma coisa na secretária onde o escritor está sentado, e ele, com ar de garoto maroto, dá-lhe uma palmada no rabo. Também os vemos de mão dada, à noite, sentados no sofá a ver televisão.

Assistimos à rotina do dia-a-dia, ao casamento, à entrega a Pilar das páginas que José Saramago vai escrevendo, e a seguir, vemos a espanhola a traduzi-los para castelhano. A determinada altura as vozes dos dois sobrepõem-se, lêem os mesmos excertos dos livros em línguas diferentes (português e castelhano).

Ao contrário de escritores que viveram a boémia, "a minha vida não tem qualquer espécie de interesse. Onde eu ponho as coisas que são verdadeiramente importantes é nos meus livros", afirma Saramago, lembrando que "o tempo aperta" e que quando o tempo aperta há um sentimento de urgência. Nos excertos de "José & Pilar", que ontem no Brasil foram apresentados mundialmente pela primeira vez (a estreia nos cinemas portugueses está marcada para Novembro, mas haverá uma apresentação a 14 de Outubro no DocLisboa), assistimos ao momento em que dentro de um avião, algures entre a Europa e a cidade brasileira de São Paulo, Saramago se vira para a mulher e lhe diz: "Tive uma ideia sobre Caim". Pilar, chama a hospedeira e pede: "Por favor uma cerveja, uma cerveja. Estou a ter um ataque de pânico." Bebe a cerveja de um trago. Saramago teve a ideia daquele que acabou por ser o seu último livro.

O documentário possível

Miguel Gonçalves Mendes, que é também o realizador do documentário "Autografia" sobre Mário Cesariny que recebeu o Prémio Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, tem mais de 230 horas filmadas. Fez uma primeira montagem do filme com seis horas e agora tem uma versão final de duas horas. "O que acabámos de ver", explica Miguel Gonçalves Mendes, "não tem a ver com o filme. O documentário não tem uma única entrevista. No filme Saramago não aparece como aqui a falar para a câmara. É mesmo só o dia-a-dia. Sem ser pejorativo, o filme é uma espécie de Big Brother da vida de José Saramago. Desde a ideia que ele teve para o livro «A Viagem do Elefante» (2008) até ao final, acompanhando uma fase muito má da vida dele que foi quando adoeceu." Mas, assegura, o filme apesar de triste é também muito optimista, passa por lá a "vontade de viver e de amar", sem "rodriguinhos".

"Para dizer a verdade, não tenho o filme que queria. Precisava de mais seis meses de edição e não tenho dinheiro para o fazer. Já estou a montar há um ano e meio e portanto é uma loucura continuar a trabalhar" nele, afirmou Miguel Mendes. "José & Pilar" é co-produzido pela produtora 02, do realizador brasileiro Fernando Meirelles e pela produtora de Pedro Almodóvar, El Deseo. Apesar disso, Mendes, que também é um dos produtores do filme, disse na Flip que o filme foi muito caro, pois teve três anos de filmagens com viagens por várias partes do mundo. "Estou com dívidas de 100 mil euros e a reformular o empréstimo da minha casa. É assim, é a vida. Vivendo e aprendendo."O realizador teve a ideia para este projecto depois de ter filmado José Saramago para um documentário que fez sobre a relação de Portugal com a Galiza. Quando o autor de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" viu o documentário premiado de Miguel Mendes sobre o poeta e pintor surrealista Mário Cesariny, disse-lhe: "Ah, Miguel eu aceito que faças o documentário sobre mim. Tenho é medo de não ser tão interessante como o Cesariny."

O documentário "José & Pilar" termina com José Saramago a declarar a Pilar del Río que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, teria morrido muito mais velho do que quando chegasse a sua hora. O único Prémio Nobel da Literatura português esperava "morrer lúcido e de olhos abertos". Pelo menos gostaria que fosse assim. E foi.

Fonte: Público


publicado por Maluvfx às 19:50
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Uma espécie de "Big Brother" da vida de José Saramago
"Não queria estar na pele da Pilar quando eu desaparecer, mas de toda a maneira vamos ficar perto um do outro, as minhas cinzas vão ficar debaixo da pedra do jardim", ouve-se José Saramago dizer no vídeo que o realizador português Miguel Gonçalves Mendes preparou para apresentar na 8ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde o escritor foi ontem à noite homenageado. "Medo? Não. A morte para mim é a diferença entre estar e já não estar." José Saramago, que morreu no dia 18 de Junho, vira-se para a câmara e diz: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio" e apaga uma luz.

Os 40 minutos exibidos na Flip, com cenas que estão incluídas no documentário "José & Pilar" e outras que não estarão, fazem crer que Miguel Gonçalves Mendes quis fazer "um filme sobre a intimidade de duas pessoas extraordinárias", como notou o jornalista e escritor brasileiro Arthur Dapieve, que conduziu a conversa que se seguiu com o realizador que durante três anos filmou a vida do Prémio Nobel.

A Tenda dos Autores, um dos locais onde se realizam as sessões com os escritores e convidados da Flip, estava cheia. "Pilar, vou para casa", diz Saramago. E vai. Em seguida vê-se o escritor sentado à sua secretária na casa de Lanzarote, em Espanha, depois de ter colocado um disco de música clássica no leitor de CD. Olha para o computador, encosta-se para trás na cadeira como se estivesse a pensar, como se fosse difícil o processo de escrita. O espectador ainda não viu o ecrã. Ele pega no rato, clica: "Este para aqui e este para ali". De repente, o público que assiste ao desata às gargalhadas. Saramago não está a escrever um novo livro, José está a jogar paciências no computador. "Está ganho. As cartas fazem uma espécie de dança" e são boas para que afugentar o Alzheimer, diz. Pouco depois, Pilar aparece, tem que ligar alguma coisa na secretária onde o escritor está sentado, e ele, com ar de garoto maroto, dá-lhe uma palmada no rabo. Também os vemos de mão dada, à noite, sentados no sofá a ver televisão.

Assistimos à rotina do dia-a-dia, ao casamento, à entrega a Pilar das páginas que José Saramago vai escrevendo, e a seguir, vemos a espanhola a traduzi-los para castelhano. A determinada altura as vozes dos dois sobrepõem-se, lêem os mesmos excertos dos livros em línguas diferentes (português e castelhano).

Ao contrário de escritores que viveram a boémia, "a minha vida não tem qualquer espécie de interesse. Onde eu ponho as coisas que são verdadeiramente importantes é nos meus livros", afirma Saramago, lembrando que "o tempo aperta" e que quando o tempo aperta há um sentimento de urgência. Nos excertos de "José & Pilar", que ontem no Brasil foram apresentados mundialmente pela primeira vez (a estreia nos cinemas portugueses está marcada para Novembro, mas haverá uma apresentação a 14 de Outubro no DocLisboa), assistimos ao momento em que dentro de um avião, algures entre a Europa e a cidade brasileira de São Paulo, Saramago se vira para a mulher e lhe diz: "Tive uma ideia sobre Caim". Pilar, chama a hospedeira e pede: "Por favor uma cerveja, uma cerveja. Estou a ter um ataque de pânico." Bebe a cerveja de um trago. Saramago teve a ideia daquele que acabou por ser o seu último livro.

O documentário possível

Miguel Gonçalves Mendes, que é também o realizador do documentário "Autografia" sobre Mário Cesariny que recebeu o Prémio Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, tem mais de 230 horas filmadas. Fez uma primeira montagem do filme com seis horas e agora tem uma versão final de duas horas. "O que acabámos de ver", explica Miguel Gonçalves Mendes, "não tem a ver com o filme. O documentário não tem uma única entrevista. No filme Saramago não aparece como aqui a falar para a câmara. É mesmo só o dia-a-dia. Sem ser pejorativo, o filme é uma espécie de Big Brother da vida de José Saramago. Desde a ideia que ele teve para o livro «A Viagem do Elefante» (2008) até ao final, acompanhando uma fase muito má da vida dele que foi quando adoeceu." Mas, assegura, o filme apesar de triste é também muito optimista, passa por lá a "vontade de viver e de amar", sem "rodriguinhos".

"Para dizer a verdade, não tenho o filme que queria. Precisava de mais seis meses de edição e não tenho dinheiro para o fazer. Já estou a montar há um ano e meio e portanto é uma loucura continuar a trabalhar" nele, afirmou Miguel Mendes. "José & Pilar" é co-produzido pela produtora 02, do realizador brasileiro Fernando Meirelles e pela produtora de Pedro Almodóvar, El Deseo. Apesar disso, Mendes, que também é um dos produtores do filme, disse na Flip que o filme foi muito caro, pois teve três anos de filmagens com viagens por várias partes do mundo. "Estou com dívidas de 100 mil euros e a reformular o empréstimo da minha casa. É assim, é a vida. Vivendo e aprendendo."O realizador teve a ideia para este projecto depois de ter filmado José Saramago para um documentário que fez sobre a relação de Portugal com a Galiza. Quando o autor de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" viu o documentário premiado de Miguel Mendes sobre o poeta e pintor surrealista Mário Cesariny, disse-lhe: "Ah, Miguel eu aceito que faças o documentário sobre mim. Tenho é medo de não ser tão interessante como o Cesariny."

O documentário "José & Pilar" termina com José Saramago a declarar a Pilar del Río que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, teria morrido muito mais velho do que quando chegasse a sua hora. O único Prémio Nobel da Literatura português esperava "morrer lúcido e de olhos abertos". Pelo menos gostaria que fosse assim. E foi.

Fonte: Público


publicado por Maluvfx às 19:50
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Domingo, 18 de Julho de 2010
É isto cultura? É isto civilização?
"(...) Refiro-me a essas vilas e cidades onde, por subscrição pública ou com apoio material das câmaras municipais, se adquirem touros à ganaderias para gozo e disfrute da população por ocasião das festas populares. O gozo e o disfrute não consistem em matar o animal e distribuir os bifes pelos mais necessitados. Apesar do desemprego, o povo espanhol alimenta-se bem sem favores desses.
O gozo e o disfrute não consistem em matar o animal e distribuir os bifes pelos mais necessitados. Apesar do desemprego, o povo espanhol alimenta-se bem sem favores desses. O gozo e o disfrute têm outro nome. Coberto de sangue, atravessado de lado e lado por lanças, talvez queimado pelas bandarilhas de fogo que no século XVIII se usaram em Portugal, empurrado para o mar para nele perecer afogado, o touro será torturado até à morte. As criancinhas ao colo das mães batem palmas, os maridos, excitados, apalpam as excitadas esposas e, calhando, alguma que não o seja, o povo é feliz enquanto o touro tenta fugir aos seus verdugos deixando atrás de si regueiros de sangue. É atroz, é cruel, é obsceno. Mas isso que importa se Cristiano Ronaldo vai jogar pelo Real Madrid? Que importa isso num momento em que o mundo inteiro chora a morte de Michael Jackson? Que importa que uma cidade faça da tortura premeditada de um animal indefenso uma festa colectiva que se repetirá, implacável, no ano seguinte? É isto cultura? É isto civilização? Ou será antes barbárie?"

José Saramago


publicado por Maluvfx às 20:24
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É isto cultura? É isto civilização?
"(...) Refiro-me a essas vilas e cidades onde, por subscrição pública ou com apoio material das câmaras municipais, se adquirem touros à ganaderias para gozo e disfrute da população por ocasião das festas populares. O gozo e o disfrute não consistem em matar o animal e distribuir os bifes pelos mais necessitados. Apesar do desemprego, o povo espanhol alimenta-se bem sem favores desses.
O gozo e o disfrute não consistem em matar o animal e distribuir os bifes pelos mais necessitados. Apesar do desemprego, o povo espanhol alimenta-se bem sem favores desses. O gozo e o disfrute têm outro nome. Coberto de sangue, atravessado de lado e lado por lanças, talvez queimado pelas bandarilhas de fogo que no século XVIII se usaram em Portugal, empurrado para o mar para nele perecer afogado, o touro será torturado até à morte. As criancinhas ao colo das mães batem palmas, os maridos, excitados, apalpam as excitadas esposas e, calhando, alguma que não o seja, o povo é feliz enquanto o touro tenta fugir aos seus verdugos deixando atrás de si regueiros de sangue. É atroz, é cruel, é obsceno. Mas isso que importa se Cristiano Ronaldo vai jogar pelo Real Madrid? Que importa isso num momento em que o mundo inteiro chora a morte de Michael Jackson? Que importa que uma cidade faça da tortura premeditada de um animal indefenso uma festa colectiva que se repetirá, implacável, no ano seguinte? É isto cultura? É isto civilização? Ou será antes barbárie?"

José Saramago


publicado por Maluvfx às 20:24
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Quinta-feira, 15 de Julho de 2010
A Racionalidade Irracional
Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.

Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra?

Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer.
Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias.

José Saramago, in 'Diálogos com José Saramago'

Fonte


publicado por Maluvfx às 09:06
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A Racionalidade Irracional
Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.

Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra?

Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer.
Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias.

José Saramago, in 'Diálogos com José Saramago'

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Sábado, 19 de Junho de 2010
Morre José Saramago, grande escritor e defensor dos animais
Por Lilian Garrafa   (da Redação)

1922-2010


“Através da escrita, tentei dizer que não somos bons
e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.” 
(José Saramago)
A morte do escritor português José Saramago nesta sexta-feira, 18, deixou entristecidos não só os apreciadores de sua excelente literatura, como também os defensores dos animais. Saramago mostrava uma nobreza de alma e sensibilidade comovente também em relação aos animais não humanos. Sua compaixão por eles foi visível em inúmeros textos e responsável pela disseminação de ideais de justiça e respeito a todos os seres.
Crítico contumaz do confinamento animal, o escritor, que tinha 87 anos, relatou em um belíssimo texto a tristeza que vivem os animais mantidos em circos e em zoológicos para entretenimento humano (clique aqui para ler o texto na íntegra no blog do escritor). Ele chegou a visitar a elefanta Susi, que vivia num zoológico na Espanha e estava passando por depressão, estresse e solidão. Saramago, ao vê-la, disse que ela estaria “morrendo de tristeza”.
Em sua obra Ensaio sobre a Cegueira, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura, Saramago não trata apenas da cegueira física, mas da cegueira moral dentro da qual a sociedade se encontra. “Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que vendo, não veem”.  Uma grande reflexão que pode ser aplicada ao imenso sofrimento que a humanidade, cega da alma, aplica insensivelmente a tudo e a todos a seu redor. A cegueira da moral e da ética.
A cegueira que beira a irracionalidade também foi abordada por Saramago no texto “A Racionalidade Irracional”. Um relato que não poupou o ser humano, ao mostrá-lo como cruel e torturador, apesar de sua razão, a qual deveria ser mantenedora da vida. Analisa e mostra a mesquinhez humana que vai atrás do lucro, do êxito e do triunfo, massacrando os seres que mereceriam seu respeito. Levanta a questão não só dos direitos humanos, mas dos deveres humanos.
Deixamos aqui nossa homenagem a José Saramago, que nos enriqueceu com sua brilhante literatura e nos presentou com seu olhar generoso e lúcido sobre os direitos animais.
Fonte: ANDA


publicado por Maluvfx às 05:39
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Morre José Saramago, grande escritor e defensor dos animais
Por Lilian Garrafa   (da Redação)

1922-2010


“Através da escrita, tentei dizer que não somos bons
e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.” 
(José Saramago)
A morte do escritor português José Saramago nesta sexta-feira, 18, deixou entristecidos não só os apreciadores de sua excelente literatura, como também os defensores dos animais. Saramago mostrava uma nobreza de alma e sensibilidade comovente também em relação aos animais não humanos. Sua compaixão por eles foi visível em inúmeros textos e responsável pela disseminação de ideais de justiça e respeito a todos os seres.
Crítico contumaz do confinamento animal, o escritor, que tinha 87 anos, relatou em um belíssimo texto a tristeza que vivem os animais mantidos em circos e em zoológicos para entretenimento humano (clique aqui para ler o texto na íntegra no blog do escritor). Ele chegou a visitar a elefanta Susi, que vivia num zoológico na Espanha e estava passando por depressão, estresse e solidão. Saramago, ao vê-la, disse que ela estaria “morrendo de tristeza”.
Em sua obra Ensaio sobre a Cegueira, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura, Saramago não trata apenas da cegueira física, mas da cegueira moral dentro da qual a sociedade se encontra. “Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que vendo, não veem”.  Uma grande reflexão que pode ser aplicada ao imenso sofrimento que a humanidade, cega da alma, aplica insensivelmente a tudo e a todos a seu redor. A cegueira da moral e da ética.
A cegueira que beira a irracionalidade também foi abordada por Saramago no texto “A Racionalidade Irracional”. Um relato que não poupou o ser humano, ao mostrá-lo como cruel e torturador, apesar de sua razão, a qual deveria ser mantenedora da vida. Analisa e mostra a mesquinhez humana que vai atrás do lucro, do êxito e do triunfo, massacrando os seres que mereceriam seu respeito. Levanta a questão não só dos direitos humanos, mas dos deveres humanos.
Deixamos aqui nossa homenagem a José Saramago, que nos enriqueceu com sua brilhante literatura e nos presentou com seu olhar generoso e lúcido sobre os direitos animais.
Fonte: ANDA


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